terça-feira, 19 de maio de 2026

Entre o crescimento econômico e a percepção popular



Entra pesquisa e sai pesquisa; entra escândalo e sai escândalo e um consenso vai sendo cada vez mais formado entre nós: o de que, mesmo diante de tantas entregas do Governo Lula 3, a percepção do eleitorado sobre ele continua muito abaixo do esperado.

Para além da questão da polarização política, que transforma cidadãos e eleitores em torcida, várias são as tentativas de explicação para tal fenômeno. Dentre os principais diagnósticos, o mais amplamente divulgado é o que atribui à comunicação institucional do governo o ônus e o bônus das reações populares. Dessa forma, bastava comunicar bem as “entregas” que a população - mesmo aquela mais seduzida por ideias contrárias - seria convencida.

Essa explicação, embora com algum sentido, é insuficiente para justificar a insatisfação de parte do trabalhador brasileiro que ainda não consegue, mesmo com o aumento da renda, acessar determinado padrão de consumo, ou que para comprar o celular desejado, precisa se endividar no cartão de crédito, pagando altas taxas de juros.

Também não é suficiente para explicar que, ainda que com todo o esforço do Governo Federal, nossos serviços básicos ainda são muito ruins (saneamento, educação, saúde, segurança, transporte público etc.) e que, a partir deles, um abismo é criado entre aqueles que acessam serviços de qualidade a altos custos e os que são obrigados a “aceitar” o que o estado oferece.

Dito de outra forma, o PIB cresce, mas “o povo não come PIB” e, ainda parafraseando Maria da Conceição Tavares, não se locomove num PIB de quatro rodas, nem coloca seu filho pra estudar num PIB. O povo não quer só comida, ele quer trem bala, ruas e avenidas limpas, moradias dignas, educação pública de qualidade. Questões estruturais que não cabem nos R$ 158,6 bilhões de um Bolsa Família, por exemplo. Mas que precisaria de algo na casa dos trilhões, de verdadeiras reformas que o rentismo e nossa condição de nação periférica impedem.

Essa perspectiva não se constrói com os juros na casa dos 15% ao ano, visto que drena toda possibilidade de reindustrialização do país, onde moram os empregos de qualidade e as ferramentas de modernização nacional.

Nesse sentido, é urgente retomar o projeto de nação como norte de superação dos obstáculos impostos ao país nos últimos anos, sobretudo a hegemonia da oligarquia financeira e do imperialismo.

Essas mudanças, obviamente, não se fazem apenas com discursos. Elas exigem reformas do Estado brasileiro que permitam a execução do programa escolhido nas urnas, sobretudo quando forças progressistas chegam ao governo. Hoje, regras constitucionais regressivas - como independência do Banco Central, arcabouço fiscal, hipertrofia dos órgãos de controle - atuam como verdadeiros entraves ao desenvolvimento nacional.

Soma-se a isso, um efeito que as políticas neoliberais provocaram na superestrutura ideológica da sociedade brasileira, que são as ideias individualistas, acentuadoras de nossas contradições internas e que fazem crer que a política - e o Estado - é incapaz de realizar as transformações necessárias. Daí a ausência desse Estado como indutor de políticas chaves para a industrialização que possibilitaria ao país ter os trens de alta velocidade, a universalização do saneamento básico ou do Ensino Superior, por exemplo.

Enquanto isso, assistimos a uma reprimarização da nossa economia que nos impede de dar saltos adiante e que comunicação eficaz nenhuma no mundo daria conta de superar.

O desafio do Brasil não é apenas comunicar melhor suas conquistas, mas voltar a oferecer ao povo um horizonte concreto de transformação nacional. Um país onde trabalhar permita viver com dignidade, consumir sem endividamento permanente, acessar serviços públicos de qualidade e sonhar com um futuro melhor para os filhos. Sem enfrentar o poder do rentismo e os bloqueios estruturais impostos ao desenvolvimento nacional, nenhuma campanha de comunicação será capaz de preencher o vazio entre os indicadores econômicos e a experiência real da população.