segunda-feira, 8 de março de 2010

Durante.

E entre sussuros e suspiros
E entre o suor e a saliva
Entre a desordem e coreografia
Entre a cachaça e a cama

Não há culpa nem mais erros
Não há escrúpulos e entremeios
Há esculturas no escuro
Silhuetas que gritam, que chamam

E há chamas nas mãos
Sem nenhuma moderação
Sem medicina que resolva
O desejo a se encontrar.

Enfim se finda
O que a dança procura
O prazer interminável
Que termina nossa loucura.

domingo, 7 de março de 2010

Atendendo a pedidos.

Com Açúcar, Com Afeto
Chico Buarque

Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa, qual o quê!
Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é um operário, sai em busca do salário
Pra poder me sustentar, qual o quê!
No caminho da oficina, há um bar em cada esquina
Pra você comemorar, sei lá o quê!
Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo, sei que alegre ma non troppo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão, qual o quê!
Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Como vou me aborrecer? Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.

quinta-feira, 4 de março de 2010

É só regar, pra alimentar o arvoredo

O amor é um sentimento verdadeiramente inocente. Ele não precisa de muita coisa pra existir. Bastam alguns sorrisos, basta a empatia mútua, basta um querer, basta um bem-querer. O amor não pede muita coisa em troca, muitas vezes ele nem se pede de volta. É o velho ditado que a gente se diz em algumas vezes: "Gosto de tu de graça". E é verdade, é de graça que se gosta de alguém. E pra isso não tem muita explicação, não há teoria que assegure verdades sobre o gostar.

Mas é por ser inocente, que o amor precisa também ser bem cuidado. É como a criança que quer um beijinho na testa, ou um trocado pra comprar besteira, ou simplesmente um carinho inocente. Crianças não gostam de adultos "chatos", sisudos. Crianças gostam daqueles que lhe pegam no colo e lhe dão um "cheirinho". É preciso alimentar o amor.

E a gente sabe que o amor é inocente, e a gente sabe que pra gostar não precisa de muito. Mas pra continuar gostando é preciso um mínimo esforço, o esforço da manutenção, do bem-querer recíproco, do fazer crescer o sentimento por saber que outrem gosta da gente. Quando a gente sente a recíproca, nosso sentimento tende a crescer. É natural. É preciso estar cuidando, regando. "É só regar, pra alimentar o arvoredo".

E quando não é regado? Aí morre, fácil, fácil. E não há tempo que volte, amor. E não há nada que ressuscite; não que eu conheça ainda. Sofrimento endurece, amadurece. Algumas lágrimas ajudam a fazer morrer, não são águas, não regam.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Renúncia

Um dia tudo estará refeito
E darei risadas desse meu momento
Mesmo com todo descontentamento
Terei alegrias a bater no peito

Querer não é verbo simples
Pessoas não são vozes passivas desse verbo
Não dá pra exigi-las
Não dá pra as ter sempre por perto.

Para as ter por perto
É preciso prosseguir, sem olhar muito pros lados
É preciso ser lírico
É preciso ser inteiro

Para as ter por perto,
É preciso ser inseparável
É preciso olhar nos olhos e dizer:
"Te preciso"

É preciso mais do que isso:
É preciso renúncia
Afinal de contas não somos reis nem rainhas

É preciso refazer
Re-sonhar
re-acreditar

Como se fosse possível re-sonhar, ou re-fazer.
Se for possível, é preciso reununciar aos verbos que a gente queria usar.

Ou pelo menos às formas, aos tempos...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Calado

Preciso é, às vezes, calar pra não sofrer
Esconder no tremor de pernas o que se queria dizer
Mesmo com danos, mesmo que se dane e dobre
A língua, os dedos e a boca.

Às vezes, é preciso jogar fora.
Com os olhos saudosos e tristonhos
O que ainda se quer
Na paisagem desenhada.

Doar-se, mesmo que doa.
Doer, mesmo que doire,
Domar mesmo que dure.

Ou que endoide, que diga
No dolo de um domingo
As verdades violentas
que te fazem calar...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Lembranças



Ah, quão doce seria viver sem lembrar.

domingo, 17 de janeiro de 2010

E se eu pudesse.

E se eu pudesse sorrir teu riso
Enxugar tuas lágrimas e sentir tua dor
E se, no teu colo, eu pudesse deitar
Toda aflição e todo perigo.

Poderia pelejar
Para que o instante dure
Para que o infinito chegue
Para que um olhar nos segure

Poderia pedir
pra que a solidão nos deixe
Sozinhos, a nós dois
Procurando nenhum depois

E se eu pudesse te dizer
Tudo isso apenas com os olhos
Ou desenhar palavras num papel
Suplico-te que vejas, e que estejas
Sempre por perto, pra não se esquecer.