quinta-feira, 4 de março de 2010

É só regar, pra alimentar o arvoredo

O amor é um sentimento verdadeiramente inocente. Ele não precisa de muita coisa pra existir. Bastam alguns sorrisos, basta a empatia mútua, basta um querer, basta um bem-querer. O amor não pede muita coisa em troca, muitas vezes ele nem se pede de volta. É o velho ditado que a gente se diz em algumas vezes: "Gosto de tu de graça". E é verdade, é de graça que se gosta de alguém. E pra isso não tem muita explicação, não há teoria que assegure verdades sobre o gostar.

Mas é por ser inocente, que o amor precisa também ser bem cuidado. É como a criança que quer um beijinho na testa, ou um trocado pra comprar besteira, ou simplesmente um carinho inocente. Crianças não gostam de adultos "chatos", sisudos. Crianças gostam daqueles que lhe pegam no colo e lhe dão um "cheirinho". É preciso alimentar o amor.

E a gente sabe que o amor é inocente, e a gente sabe que pra gostar não precisa de muito. Mas pra continuar gostando é preciso um mínimo esforço, o esforço da manutenção, do bem-querer recíproco, do fazer crescer o sentimento por saber que outrem gosta da gente. Quando a gente sente a recíproca, nosso sentimento tende a crescer. É natural. É preciso estar cuidando, regando. "É só regar, pra alimentar o arvoredo".

E quando não é regado? Aí morre, fácil, fácil. E não há tempo que volte, amor. E não há nada que ressuscite; não que eu conheça ainda. Sofrimento endurece, amadurece. Algumas lágrimas ajudam a fazer morrer, não são águas, não regam.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Renúncia

Um dia tudo estará refeito
E darei risadas desse meu momento
Mesmo com todo descontentamento
Terei alegrias a bater no peito

Querer não é verbo simples
Pessoas não são vozes passivas desse verbo
Não dá pra exigi-las
Não dá pra as ter sempre por perto.

Para as ter por perto
É preciso prosseguir, sem olhar muito pros lados
É preciso ser lírico
É preciso ser inteiro

Para as ter por perto,
É preciso ser inseparável
É preciso olhar nos olhos e dizer:
"Te preciso"

É preciso mais do que isso:
É preciso renúncia
Afinal de contas não somos reis nem rainhas

É preciso refazer
Re-sonhar
re-acreditar

Como se fosse possível re-sonhar, ou re-fazer.
Se for possível, é preciso reununciar aos verbos que a gente queria usar.

Ou pelo menos às formas, aos tempos...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Calado

Preciso é, às vezes, calar pra não sofrer
Esconder no tremor de pernas o que se queria dizer
Mesmo com danos, mesmo que se dane e dobre
A língua, os dedos e a boca.

Às vezes, é preciso jogar fora.
Com os olhos saudosos e tristonhos
O que ainda se quer
Na paisagem desenhada.

Doar-se, mesmo que doa.
Doer, mesmo que doire,
Domar mesmo que dure.

Ou que endoide, que diga
No dolo de um domingo
As verdades violentas
que te fazem calar...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Lembranças



Ah, quão doce seria viver sem lembrar.

domingo, 17 de janeiro de 2010

E se eu pudesse.

E se eu pudesse sorrir teu riso
Enxugar tuas lágrimas e sentir tua dor
E se, no teu colo, eu pudesse deitar
Toda aflição e todo perigo.

Poderia pelejar
Para que o instante dure
Para que o infinito chegue
Para que um olhar nos segure

Poderia pedir
pra que a solidão nos deixe
Sozinhos, a nós dois
Procurando nenhum depois

E se eu pudesse te dizer
Tudo isso apenas com os olhos
Ou desenhar palavras num papel
Suplico-te que vejas, e que estejas
Sempre por perto, pra não se esquecer.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Não sei.

Não sei ser feliz. Definitivamente, não sei. É o frio na barriga que me alimenta, é o rubor que me acalma, que me apraz. É uma vontade de dizer não, de querer o querer bem, de te ter aqui embaixo, nos joelhos, na minha boca e no coração.

Do coração não consigo arrancar. É um querer ser diferente, é um querer gritar ficando calado. É um querer dizer com os olhos, indo para qualquer canto que encontre você. São meus olhos perdidos, procurando alguns sorrisos, procurando um abraço, um laço. É a necessidade de me embriagar, de me viciar, é a cachaça, é o cigarro, é o beijo, é o sexo.

E por não conseguir arrancar, também não consigo me ser. É uma covardia que me bate, é o medo constante de não ter, é a necessidade infeliz de dizer, mas a rotina incansável de calar. É a voz gélida ao telefone, dizendo que não há nada com o que se preocupar. É o medo de me afogar, é o medo de me perder. É um querer comandar a nau, mas não ter controle. É não ter coragem, é não viver.

Mas é ver, e querer, mesmo assim. É perder, é disputar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pra Quê?

Imagens, pra que vos quero,
Se com elas pinto a imaginação?

Imagens, pra que vos criar,
Se com elas crio sem de ti precisar?

Imagens, que preço pagamos
por querer um instante de rima e de sons?

Imagens, que sinfonia contigo se cria
sem alegria, tristeza ou rancor?

Palavras, a vós que vos quero
buscando o mistério de ser seguidor

A ti eu te sigo como em romaria
Espero que um dia eu possa cantar

As minhas imagens feitas no verbo
Sem nada por perto
Só soltas no ar.