sábado, 20 de maio de 2017

Implosão

Há dias em que o mundo explode lá fora

e a gente implode aqui dentro...

E procura, nos escombros de nós mesmos, brechar para respirar


Há dias em que os dias são tão claros lá fora
mas o cinza da poeira em nossos olhos é demasiado grande pra nos fazer enxergar

Há dias em que nossos olhos pedem pra ver
mas estamos, qual doença, ocupados demais com a escuridão

Há dias em que falta luz
... e a gente apaga aqui dentro

Já dias em que não podemos sair
... e fechamos as portas

Há dias em que casas são reformadas
...e erguemos muros aqui dentro

E um dia, então, tudo se fecha
                           tudo se apaga
                           tudo se ocupa
     
                           tudo se implode...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A política como mediadora de conflitos


Nas análises mais recentes sobre os efeitos da crise mundial do capitalismo, uma das consequências mais debatidas e que tem sido provocadora de uma grande desesperança em torno das esquerdas no mundo é a questão da criminalização da política ou que chamamos de caminho fora da política.

O efeito devastador das crises, hoje e ontem, provoca o já conhecido abandono às saídas políticas. Foi assim no período da crise de 29, geradora em último grau da Segunda Guerra Mundial, e tem sido assim no momento atual, com a ascensão de figuras cuja principal "qualidade" é a de não ser político. Nos Estados Unidos da América,a eleição de Trump simbolizou bem o que isso significa e por aqui a eleição de João Dória como prefeito da maior cidade brasileira e a tentativa de despontar no cenário de nomes como Luciano Huck e Roberto Justus são provas maiores dessas questões.

O que não podemos esquecer é que em períodos de crise soluções "novas" são apresentadas. As aspas se justificam pois sabemos que nem tão novas são essas soluções. São roupas novas, falares diferentes mais uma mesma política, cujo vértice está na dominação de classe, na resistência do império ao seu declínio relativo e à possibilidade de um mundo multipolar, e na tentativa do capital de não reduzir sua taxa de lucro. Para isso, vale-se de qualquer expediente.

No Brasil, as soluções "novas" e a negação da política é motivada ainda mais pela operação Lava-Jato, que cada vez mais tem colocado o país ainda mais polarizado, entre o partido da Lava Jato (composto pelo consórcio golpista, mídia, setores do judiciário e do ministério público, além dos partidos de direita) e o partido da política. Essa tem sido, portanto, a contradição principal do Brasil atual.

Não há segredo. O destino de uma operação como a Lava-Jato -com as características que ela já demonstrou ter e com os crimes de lesa-pátria que já cometeu ao destruir as empresas de engenharia pesada e ao destruir mais de 600 mil vagas de emprego só neste setor - é levar ao poder soluções fascistas, tal qual o juiz que conduz a operação.

No entanto, sobre o termo política paira sempre uma confusão. Nesse sentido, é óbvia a compreensão de que tudo o que a classe dominante faz para a sobrevivência dela enquanto classe dominante é política - política no sentido de como realizar medidas ideológicas, políticas e econômicas a favor de uma classe. Mas quando nos referimos à negação da política tratamos dela como mediadora de conflitos.

É essa política como mediadora de conflitos que garante ao mundo, mesmo sob hegemonia burguesa, uma certa governabilidade; é essa política como mediadora de conflitos que possibilitou a existência de um estado - tanto como gestor dos interesses de uma classe, como quando uma burocracia estatal a comanda (bonapartismo) - mas é, sobretudo, essa política como mediadora de conflitos que garante as regras do jogo e não permite que o mundo viva em eterna convulsão social.

Se estivéssemos num período de ofensiva estratégica o que menos quereríamos era "mediar conflitos", mas, pasmem, - e como a dialética nos ajuda! - a tranquilidade de um mundo onde saibamos quais regras jogar, com estabilidade democrática e direito de existir e fazer política ainda é o melhor caminho.

Por isso, sem falsos moralismos, a nossa luta deve se concentrar em salvar o exercício dessa política mediadora de conflitos para que possamos sobreviver e continuar fazendo a luta por um Brasil forte e soberano. Avançam medidas retrógradas contra o povo e contra as esquerdas. A proposta de Reforma Política é um libelo de como o consórcio golpista quer ver a atividade democrática do país: nula. Combater o partido da Lava-Jato e conquistar corações e mentes para a Política é tarefa essencial. Cumpramos! 

domingo, 7 de maio de 2017

Culpado

Quisera eu processar o tempo
para que ele me devolvesse os dias

Quisera eu pudesse aprisioná-lo
puni-lo pela minha insensatez
e meu coração duro

Algemado então,
quisera eu poder declarar meu amor novamente

Quisera eu processar  tempo
fazê-lo me devolver as constelações que por ora avistei
ou as flores que vi se partir

Quisera eu que eu o tempo pagasse
pelo tempo que o quis depressa
e que nunca me fez essa angústia sumir

O tempo que me pague o tempo que gasto
todos os dias
para explicar o que fiz e o que sou

Quisera eu que processado então
pudesse culpar o tempo por tudo o que não fiz


porque não tive tempo
por que não tive paz

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior, presente!

Ontem, pela manhã, fomos todos surpreendidos com a notícia da morte de Belchior, artista cearense que cantou a liberdade, mas, sobretudo, cantou as coisas reais. 

Diante de mortes como a dele, é muito comum que as redes sociais se encham de mensagens, lembranças e honrarias a artistas cuja obra encantaram e encantam pessoas num país inteiro. É também muito comum a gente se perguntar se existem tantas pessoas assim gostando de determinados artistas. Paira uma dúvida. Não sobre Belchior.

Belchior era querido por todos, principalmente por aqueles que encontravam, na democracia e na liberdade objetivos para viver sem perder a ternura. E Belchior era pura ternura, mesmo que seu canto torto feito, feito faca, cortasse a carne da gente.

E cortava.

Cortava porque Belchior, como afirma uma de suas canções, tinha alucinações por coisas reais, mesmo quando alguns diziam que tudo era divino, tudo era tão maravilhoso. Não. Não era divino e maravilhoso na época em que Belchior compôs seus principais álbuns, como "Alucinação" e "Coração Selvagem". Eram tempos difíceis, como os de agora, em que continuamos precisando da arte que fale sobre as coisas reais, que interaja e se entregue aos homens e mulheres de seu tempo.

Belchior, talvez não conscientemente, levou a sério a estética neo-realista, cujo propósito da arte estava bem definido, sem ser chato, hermético, dogmático. Na vida - e na arte - levou a sério o objetivo de integração latino-americana, tal qual um jovem argentino cuja arte era diferente, Belchior andou por toda essa América, procurando nossas semelhanças e se encantando com os tangos argentinos ou os romances chilenos.

Por isso, em tempos de golpe, nossa resistência é uma forma de homenageá-lo. Lutar contra a recolonização da América Latina pela qual Belchior tanto fez. 

Diante das insuficiências de minhas palavras, só o próprio Belchior para definir o momento de sua partida, do momento em que "eles venceram e o sinal está fechado para nós". 

Belchior, tenha certeza de que sua vida na terra não foi em vão. Haveremos de vencer!