sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Não Temos mais Escolha

Há tempos vinha procurando um lugar pra me esconder. Primeiro, tentei me esconder atrás daquele homem magro que percorriaa cidade com a mão trêmula. Carregava um papel com os seguintes dizeres: "Não temos mais escolha". Obrevei sua face suadae procurei me esquivar de uma possível situação prejudicial. Assim fazia eu durante todos os meus dias, sempre me esquivando,sempre procurando esconderijos em meio a um palco cotidiano.

Estava lá, estava indo para mais uma entrevista de emprego às quais eu me submetera durante alguns anos. O prédio eraluxuoso, algo que resplandecia soberba. Na recepção uma loira linda me aguardava: Seus cabelos brilhavam, ela me chamava com seu olhar e o convite de me juntar à grande empresa que ela representava. Mais uma vez me escondi, desta vez por trás de um sor-riso canalha a um excesso de confiança em minhas virtudes masculinas. Ao me apresentar à moça, deixei cair os olhos sobre seudecote e observei sem nehum escrúpulo.
Encaminhado ao andar do RH, me escondi atrás de palavras que procuravam convencer àqueles que iriam me contratar,falei sobre minhas experiências e joquei com adjetivos que nunca me definiram, mas que poderiam muito bem esconder quem eu sou.Trabalho em equipe, solidariedade foram palavras que se deitavam sobre minha língua, repousavam felizes e hipócritas em minha boca.E escapavam saltitantes diante de meu terno. A senhora dos recursos humanos tinha mais ou menos 43 anos, nem bonita nem feia.Mas eu precisava jogar meu carisma diante dela, precisava impressionar. Seu nome era Waleska, e da mesma forma que tinha jogadominhas palavras. Jogava minha atenção e minha disponibilidade. Coisas que eu nunca soube dar.
Ao fim da entrevista fui muito elogiado pela dona Walesk, que ainda ajeitava o sutiã de forma indiscreta e me procurandocom o olhar. Abriu-me a porta e foi logo dizendo: "O senhor está praticamente contratado, só falta repassarmos seus dados à diretoria."Pronto, era tudo que eu queria, chegou a hora de comemorar. DescenDo as escadas, fiz-me de homem sério e respeitador; e ao encontrarnovamente a loirinha da recepção deixei meu cartão e disse por entre dentes:"Em breve seremos companheiros de trabalho". Sentindo aquelabrisa me refrescar, novamente procurei o bilhete que estava no bolso de meu terno:

"Querido,
Apesar de através desta carta te chamar de querido, quero que saibas que minha vida com você durante todos esses anosfoi um verdadeiro tormento. Estou te deixando aqueles presentes e aos fins de semana venho traser o Cosme e a Catarina, praficarem contigo. Tentei até onde pude, mas NÃO TEMOS MAIS ESCOLHA..."

Mais uma máscara caiu, mais uma cortina se abriu...

4 comentários:

diogo disse...

otimo nilson! :D

:*

Observadora disse...

Ainda existem pessoas talentosas no mundo.

Qualquer dia eu te passo meu blog pessoal...

Escrevinhador disse...

Muito bom!
Como tu ainda não tinhas um blog? Um cara com o conteúdo que tu tem expor??

Vou acompanhar o progresso agora...

Falou! o/

angelpri disse...

Nossa perfeito, adorei!até melhor que muitos textos de Clarisse Lispector
Meu amor tem um talento incrível