segunda-feira, 6 de junho de 2016

Para salvar a democracia, muita rua e muita política!


O balanço desse pouco menos de um mês pós-golpe no Brasil,antes de mais nada, fazem cada cidadão e cidadã brasileira - mesmo os que apoiaram o impeachment da presidenta legitimamente eleita, Dilma Rousseff - se arrepiarem ao ver as trevas que cercam e dão o norte a esse governo interino-golpista de Michel Temer.

O golpe, assim como vários outros golpes dados no Brasil em outros momentos da história, baseou-se, para arregimentar algum apoio popular, em várias ilusões, em mentiras contadas para iludir o cidadão de bem insatisfeito sobretudo com a situação econômica do país. 

Muitos ouviram - e disseram - que a deposição da presidenta Dilma seria uma solução para economia, mesmo sabendo que a crise que por ora atinge o Brasil é reflexo de uma crise sistêmica, estrutural do capitalismo pelo mundo; origem de desemprego e baixíssimo crescimento das economias nacionais.

Os golpistas, acreditando na senha "tira Dilma que a bolsa cresce", esqueceram de algumas leis objetivas da economia e principalmente desprezaram o prestígio que o Brasil ganhou mundialmente nos últimos tempos, além da falta de confiança que o seu deus mercado tem em alguns dos artífices do golpe. Resultado: o baixo desempenho da economia continua, mesmo com os resultados das decisões econômicas tomadas por Dilma.

A segunda falácia, a de que não seriam retirados direitos adquiridos nos últimos anos também é ameaçada. Contratos do Minha Casa Minha Vida suspensos, ameaça de limitação da internet, regressão nos direitos trabalhistas, fim da política cultural, extinção de ministérios importantes e cortes de recursos para as áreas sociais. Nem nos piores pesadelos neoliberais imaginava-se isso!

A terceira e maior falácia, a do combate a corrupção, foi também a mais evidentemente desmascarada. Embora muitos de nós alertássemos sobre o verdadeiro sentido da tentativa de impeachment, poucos acreditavam que os usurpadores queriam mesmo era tomar conta do estado para poderem perpetuar seus negócios escusos e, sobretudo, parar a Lava-Jato.

As gravações de Sérgio Machado com figurões do PMDB expõem as vísceras do sistema politico brasileiro, levado ao mais subterrâneo dos níveis, desmoralizando a atividade política e aflorando ainda mais o sentimento de que, na política, todos são iguais. Os golpistas, nesse sentido, põem a política em risco.

O PCdoB, entendedor de que, fora da politica, o que se sobressai é o fascismo, a violência política e a desestabilização das instituições democráticas, propõe um saída política para o impasse que vivemos: restabelecer a soberania do voto, derrotando o impeachment no Senado e propondo um plebiscito para que o povo decida se teremos novas eleições ou não. Essa é uma saída que preserva a manutenção do voto como ponto central das decisões dos rumos do país; preserva a política como atividade importante para a democracia e derrota os golpistas, com fortes possibilidades de, numa nova eleição, reafirmar o combate à agenda neoliberal que, na mão grande, os golpistas tentam aplicar.

No entanto, a realização política é um exercício que deve ser praticado por vários atores e, com certeza, um dos principais são os movimentos sociais. Não tirar o pé da rua, nesse sentido, é essencial. É preciso continuar fazendo a denúncia do golpe, desestabilizando os golpistas e conquistando a adesão daqueles que, mesmo insatisfeitos com a condução petista, reconhecem o atraso que a agenda neoliberal impõe ao país, além da quebra do estado democrático de direito.

O golpe, contrarrevolucionário por natureza, como afirma Luís Fernandes, precisa ser enfrentado nas ruas, de forma que possamos resgatar o poder do voto e tenhamos chance de criar uma agenda propositiva e nacional. Para salvar o Brasil, a democracia e a política, é preciso travar uma guerra, e rua, com certeza, é uma das principais trincheiras pela qual precisamos passar. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Entre a participação, o oportunismo e a dispersão


Se é verdade que, mesmo sob as mais variadas formas de luta, ou sob as mais variadas ideologias, há uma imensa quantidade de lutadores do povo que, principalmente em anos eleitorais precisam ser apresentados à população para que, identificada com eles, possam fazer-lhes os dignos representantes dos seus anseios pela construção de um país menos desigual; é verdade, também que é preciso cuidar para, com a amplitude necessária, não caiamos em posturas oportunistas nem dispersivas.

A luta do povo, como é de conhecimento no mundo atual, reveste-se das mais variadas formas, por isso, é inteiramente justa a participação dos comunistas, daqueles cujas ideias mais avançadas tendem a dar a qualquer luta democrática o componente qualitativo, que faz, de uma bandeira específica, bandeiras para a emancipação da classe trabalhadora, cumprindo verdadeiro papel de vanguarda, contribuindo e conduzindo às massas a um processo de maior entendimento da luta política. No entanto, a esse elemento é fundamental o justo enraizamento e o verdadeiro entendimento dos motivos e necessidades de determinada comunidade, de determinado movimento. Nesse sentido, não há motivo para ir de encontro a qualquer organização popular.

Essa participação, no entanto, para cumprir o papel qualitativo que pode cumprir, requer uma justa mistura dos comunistas com a base popular, a ponto de fundir-se com o povo, como dizia João Amazonas. Não sendo dessa forma, recai-se no oportunismo, o qual pode ser praticado tanto pela direita quanto pela esquerda. Apropriar-se de movimentos reivindicatórios para autopromoção, por exemplo, é das práticas mais abomináveis que os protagonistas da esquerda podem realizar. Diante disso, aos comunistas, cabe, mais do que 'participar de todos os movimentos', gerar pautas com as quais as pessoas se identifiquem e pelas quais achem que vale a pena lutar. Com a reacesa luta pela democracia, por exemplo, abrem-se novíssimas possibilidades de agregar os mais diferentes setores da sociedade.

Ter foco, no momento atual então, é essencial. As lutas dos movimentos de tática diversionista, se não bem orientadas a fazer se suas lutas um passo para reconquistar e consolidar a democracia, correm o risco do sectarismo, oportunismo e sobretudo do corporativismo.

Por isso, para evitar a dispersão, três elementos não podem faltar no debate das entidades populares,e muito menos nas candidaturas municipais: democracia - com novas eleições diretas -, superação da crise econômica pelo viés do desenvolvimento e pela manutenção dos direitos e trabalhistas e soberania nacional.

Com esses elementos, faz-se de nossos discursos armas empunhadas em prol de um país forte e soberano, que vem sendo atacado de maneira brutal pelo império e seus agentes internos cujos objetivos passam longe de um republicanismo, quando na verdade a perpetuação de seus esquemas subterrâneos aparece como único motivo da derrubada de uma presidenta honesta.

Dizer não ao golpe e fazer essa defesa parece-me um caminho pelo qual devemos trilhar. Buscando cada vez mais adesões e fazendo da luta politica ambiente propício a cada vez mais participação popular de todos e todas que querem ver o país voltar ao rumo da democracia e desenvolvimento.

domingo, 22 de maio de 2016

Lutar pela democracia, agora e sempre!


Passados 10 dias do afastamento da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, uma marca importante é deixada por ela em todos os anos que esteve à frente da presidência do país, mas sobretudo no dia em que saiu do Palácio do Planalto: seu amor às causas democráticas.

Em seu pronunciamento, dito três vezes naquele fatídico dia, Dilma fez questão de manter sua militância mobilizada, entre outras coisas, por acreditar que a luta pela democracia é algo pelo qual devamos lutar constantemente e que a democracia é algo que precisamos cuidar, preservar para que ela não seja atacada como foi pelos golpistas hodiernos e de outrora.

Dilma está certa. No Brasil principalmente, o componente democrático, como que aflorando das contradições intrínsecas do capitalismo local, no nosso, caso principalmente entre entreguistas e nacionalistas, tem sido o fio condutor das mais importantes lutas políticas no país, sobretudo pós século XX.

Em entrevista ao blog da socialista morena, o governador do Maranhão, Flávio Dino, afirmou com felicidade ímpar: "foi uma ilusão acreditar na consciência democrática da elite brasileira". Verdade. A história de nosso país atesta essa afirmação pelas mais variadas formas de golpes de estado por que passamos. 

O Brasil, cuja fundação sob bases colonialistas tanto dizem sobre nossa formação social, país jovem, historicamente enfrenta dificuldades em afirmar sua soberania e democraticamente escolher os que conduzem a nação e qual o conteúdo de nossa trajetória. Nesse sentido, à nossa elite, mais anti-nacional impossível, sempre coube o papel de bagunçar as regras do jogo para atender aos interesses dos que colonizaram o nosso país: Portugal, Inglaterra, Estados Unidos.

Por isso, em momentos nos quais as crises cíclicas do capitalismo atingem as grandes finanças mundiais, no nosso país, é justamente o binômio soberania e democracia que é atacado. Não é à toa. A causa é bem nítida: para o império esse país de pouco mais de 500 anos, mas com a 5ª extensão territorial, 5ª população mundial, 7º PIB, precisa ser controlado e precisa servir aos seus interesses. E para isso, o império conta com uma elite subserviente e voraz.

Nesse sentido, aos que mesmo sob vieses politicamente diferentes, mas que lutam pelo desenvolvimento nacional, sob a égide de um país forte economicamente, que possa garantir melhorias para sua vida individualmente e coletivamente, é preciso manter a chama da luta pela democracia acesa. Sempre que ela foi atacada, foi atacada também a nossa economia e nossa soberania, afetando nossa inserção no mundo e a distribuição da riqueza e oportunidade que nosso país pode e deve fazer, garantindo justiça e paz social. Não baixar a cabeça, permanecer organizando os comitês contra o golpe são fundamentais para o momento. Temos chance, vamos à luta!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fernando Brito: Sob o mando de um vilão, que ainda ficará muito menor do que já é

Em Tijolaço:


Quando Leonel Brizola perdeu, por uma manobra judicial tramada por Golbery do Couto e Silva, a sigla do PTB de Vargas, Carlos Drummond de Andrade escreveu, no velho JB de de 1980:
Vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e fogos. Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro.
A política, vi as impurezas da política recobrindo sua pureza teórica. Ou o contrário.. Se ela é jogo, como pode ser pura… Se ela visa o bem geral, por que se nutre de combinações e até de fraudes?
A consumação do afastamento de Dilma Rousseff, às 6:34 de hoje, por truques jurídicos de um golpe parlamentar, virou história.
Triste, mas história.
Hoje não é dia de discutir como e porque chegamos a este desfecho, mas de abraçar a figura vencida e de abominar a do vencedor.
Chegará, sim, a hora da reflexão – muito mais do que acusação – sobre os erros cometidos, mas certamente não é essa.
Há algo mais grave, muito mais, do que qualquer erro que Dilma, ou Lula, ou o PT, ou mesmo toda a esquerda possam ter cometido.
É que nosso país, de tantas vilanias e de tantos vilões, está sob o mando de um rematado vilão, porque só o vil assim hipertrofiado é que poderia urdir a degola daquela (e daquele, porque também a Lula) a quem deve o lugar de seu substituto.
Não há, na história do país, exemplo igual de vilania. Nem Jango, nem Itamar Franco  tramaram contra Jânio e contra Collor. E o que fez Café Filho com Vargas é asséptico  perto da imundície de Michel Temer.
Imundície que não se resume nele, mas em todas as instituições que assistiram e promoveram a consumação deste esbulho: um acanalhado sem vergonhas, o Legislativo, e  o acanalhado pomposo, o Poder Judiciário.
Bem se vê que ambos não coraram de se acumpliciar ao regicídio, mesmo a maioria deles tendo feito parte da Corte.
Dilma não caiu por crimes, como os tantos da política, nem sequer os de responsabilidade. Basta um fato para demonstrá-lo: o sepulcral silêncio sobre o nome de Joaquim Levy, o ministro da Fazenda que planejou, redigiu e assinou os atos pelos quais Dilma é acusada.
Pois se admitir-se que Dilma “pedalou”, Levy preparou a bicicleta “engatilhada”.
A omissão do ex-ministro da Fazenda é, porém, uma nada perto do nanismo moral de Michel Temer.
Nanismo, o que é pior, sem sequer um sistema de freios e contrapesos parlamentar ou judicial que o possam tracionar.
O que vão faze-lo, por fraco, é comprimi-lo ainda mais ao rés do chão.
E por pequeno, moral e politicamente, transferirá para o povo que ilegitimamente passa a governar, todas estas pressões e compressões.
Passava pouco das seis e meia da manhã quando os últimos raios de luz despareceram do horizonte próximo.
Vamos ter de caminhar muito, junto do povo do qual nunca podemos nos apartar com aventuras, até vermos de novo a luz.

terça-feira, 3 de maio de 2016

É preciso remar

É preciso remar como quem ama
com os braços agarrar forte e enfrentar a corrente
com o coração mergulhar na revolta

mas é preciso lutar como quem rema
amar como quem reza
rezar como quem quer

E em meio às vagas que o mau tempo nos dá
construir mapas de navegação
orientes para os que almejam chegar à praia

ou no horizonte, do qual nos aproximamos
tão perto, tão longe
              tão perto, tão longe
                              tão perto, tão longe

do qual criamos imagens...e semelhanças!
fazendo-nos aquilo que (não) fomos
mas insistimos em fingir

e dizer.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A ideologia da lama: um olhar sobre o discurso do manguebeat


Em vários momentos da história, a música cumpriu seu papel de afirmar e expor os conflitos existentes na sociedade. Chico Buarque cantou, em versos muitas vezes disfarçados, a opressão do Regime Militar, subverteu símbolos, como o “Cálice”, para dizer o que pensava e precisava ser dito. Victor Hugo já afirmara: “a música é o barulho que pensa”

Em plena década de 90, em que os inimigos daquele momento estavam muito mais difusos que no período de “Cálice”, numa cidade que, segundo pesquisas (TELES, 2012 p. 258), era a quarta pior cidade do mundo para se morar, surge um movimento musical, inspirado na mistura de linguagens musicais, sonoras e visuais para afirmar a identidade cultural de uma população e expor contradições e conflitos intrínsecos da formação do povo recifense e pernambucano. O Manguebeat, movimento liderado por Chico Science e sua banda Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, desnudou problemas e características da formação de nossa cidade de forma irreverente e plenamente crítica. 

Se levarmos em consideração outros movimentos musicais da cultura pernambucana que têm lugar cativo no coração da população do estado, como o Maracatu e o Frevo, sendo este último patrimônio imaterial do estado e da humanidade, é ao lado dessas manifestações artísticas que o manguebeat deve estar, não só no carnaval, mas recebendo o devido incentivo e divulgação para todas as gerações, inclusive nas escolas, visto que o movimento tratou e trata de questões pertinentes à vida da periferia e das nossas cidades como um todo.

O Manguebeat, movimento primordialmente musical, utiliza-se da língua(gem) escrita, mas com uma importante dimensão oral, para dizer aquilo que os seus idealizadores pensavam. E no uso da linguagem, o movimento teve como um dos principais recursos a forma como seus autores lidavam com os símbolos/signos linguísticos. O Manguebeat utilizou-se de símbolos que, antes, não caracterizavam a posição na luta de classes que passou a ter em suas canções. Palavras como “lama”, “mangue”, “caranguejos” passaram a ganhar um novo enfoque; pois segundo Bakhtin (1997) “Todo signo é ideológico; a ideologia é um reflexo das estruturas sociais; assim, toda modificação da ideologia encadeia uma modificação da língua”.

Essa modificação da ideologia é, justamente, o essencial no que se refere ao discurso veiculado pelo Manguebeat, pois ao mexer com os signos linguísticos, ao revirá-los e remoldá-los, o sujeito está afirmando sua ideologia, dizendo aquilo que pode e deve ser dito diante da posição que ele ocupa na luta de classes. As músicas do Manguebeat afirmam, a todo tempo, um posicionamento ideológico, do cidadão que reconhece a cultura local, as belezas de sua cidade, mas não se esquece de denunciar as mazelas, contradições e desigualdades que surgem desde sua fundação.

Para Bakhtin (1997), faz-se de total importância lembrar que a ideologia e os signos estão intimamente ligados, pois, segundo ele, “tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo”.

Entretanto, para além disso, Bakhtin (1997) avalia que mesmo um corpo físico, que normalmente vale por si próprio, pode ser percebido como símbolo. E essa relação foi algo que o movimento Manguebeat executou de maneira exitosa. Chico Science e companhia trabalhou com símbolos físicos remoldados a fim de representar uma ideologia, ou o que Chauí (2001) chama de “contra-ideologia”. A subversão de termos como “caranguejo”, “mangue”, “lama”, “cidade” corrobora com a ideia do valor que a palavra exerce a depender da posição em que ela é enunciada diante da luta de classes. 

Segundo Bakhtin (1997 p. 35), “A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais. Os signos são o alimento da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento”. O autor ainda se refere aos signos como algo indissociável da luta de classes, haja vista que signos isolados perdem o sentido e tendem a ser objeto de estudos da filologia, tornam-se algo sem vida e sem racionalidade.

Há, ainda, na relação com os signos, a mais que feliz escolha do movimento, visto que, de acordo com José Teles, “A capital pernambucana foi erguida em cima de manguezais, ela é com efeito um imenso aterro, cruzada por rios. A relação da população pobre com o mangue, sua flora e fauna, é de grande intimidade. O primeiro, senão o mais importante, estudioso desse relacionamento foi o médico Josué de Castro (...)”.

Além disso, a intertextualidade buscada nas referências de Josué de Castro - médico, geógrafo, sociólogo e político - cujo estudo sobre a fome e sobre a relação dos famintos recifenses com o mangue permearam sua obra e permeiam a do manguebeat desde Chico vivo até os tempos da Nação Zumbi sem ele, como na música "Fome de Tudo", que diz "a fome tem uma saúde de ferro..."

Por isso, conhecer, estudar e promover esse movimento que em muito ultrapassou a questão da estética musical, passando pelo cinema, moda e comportamento, faz parte de uma maneira cada vez melhor de entender as nossas raízes e os heróis modernos que a música nos proporcionou, pois como dizia Chico, "modernizar o passado é uma evolução musical".


sábado, 9 de abril de 2016

Sobre a paternidade

Quando Cecília nasceu, desaguou sobre mim toda uma série de emoções sobre as quais nem consigo falar com propriedade, nem nunca havia me deparado antes.

Desde o instante em que descobri que iria ser pai, a vontade/necessidade de sabê-la saudável, pronta, física e mentalmente para encarar o mundo era minha primeira preocupação. Essa preocupação se manifestou no dia em que ela veio ao mundo e não saí do seu lado, observando todos os seus detalhes: dedos, mãos, pernas, olhos e cabeça, já encontrando - mesmo sem querer - o que meu havia nela, como o formato da sua boca e o tamanho de seus dedos.

Daquele momento em diante, soube que minha vida mudaria para sempre. Mudaria nas limitações que o cuidado com um bebê requer da gente, mudaria naquilo a que se destinaria minhas parcas economias, mas mudaria, sobretudo, as minhas concepções sobre a vida.

Já disse em textos anteriores o quanto, embora não tenha tido o tempo suficiente para demonstrar, passei a entender melhor minha mãe e todas as suas preocupações que, no ímpeto de minha juventude, chamava de neuroses, de exageros.

Passei a ver que, mesmo com minha experiência negativa com a figura de pai, a boa paternidade existe, e de um jeito tão sutil que só o nascimento de Cecília me fez perceber, como o jeito carinhoso que machões, como homens de pouca instrução e baixo poder aquisitivo agasalham suas crias em seus braços, como se ali pudesse protegê-los para o resto da vida.

Eu, na minha experiência debutante, tento carregar Cecília no colo com a mesma sensação: a de que, em meus braços, poderei protegê-la pro resto da vida. Protegê-la das doenças, da violência, da falta de amor. Protegê-la do jeito que a sociedade nos faz educar os nossos filhos, fazendo-os pessoas individualistas, consumistas, preconceituosas e machistas.

Nessa jornada, tento, protegê-la de mim mesmo, para que não carregue os preconceitos que eu carrego,o machismo que tenho e que me esforço para combater, para que possa seguir apenas os poucos, mas valorosos bons exemplos que posso dar.

Hoje, só ao vê-la adormecer em meus braços, carrego-me de orgulho e satisfação, mas sobretudo um certo receio de fazê-la sentir o mesmo por mim quando adulta. Fazer de mim um homem melhor é condição sine qua non para deixar bons frutos no mundo que, tenho esperança, minha filha saberá semear - e colher.