quarta-feira, 20 de julho de 2016

Um golpe, várias causas, uma maneira de resistir: lutar!


Passados poucos mais de 60 dias de governo usurpador e ilegítimo, crescem, além da insatisfação popular, formas de analisar e procurar causas, conexões e alternativas para superar aquilo que pode ser o período dos mais profundos retrocessos da história republicana no Brasil.

É muito comum, por exemplo, motivados pela angústia que o momento nos traz, buscarmos uma única causa, aquilo que seria o motivo fatal para as forças reacionárias brasileiras terem aplicado um golpe ao Estado Democrático de Direito e, em tão pouco tempo, estarem aplicando um programa de grande perda de direitos sociais. Essa postura no entanto, é anti-dialética, visto que é preciso enxergar a conexão universal dos fatos e também perceber a luta de classes como motor da história, a eterna luta e unidade de contrários, a eterna luta entre o novo que quer se afirmar e o velho que resiste.

Eleição de um governo dirigido por forças de esquerda: uma afronta às forças conservadoras

Quando se fala do quão significativo foi para a história brasileira a eleição de Lula em 2002 e o ciclo que foi aberto a partir daquele instante, mesmo que pareça clichê, é preciso reiterar a maneira como as peças do tabuleiro nacional e geopolítico em instância internacional foram alterados.

O Brasil, embora em mais de 500 anos tenham tentado nos fazer acreditar, não é um país qualquer, é um país com um território imenso, carregado de recursos naturais; uma população (mercado consumidor) equivalente às das maiores economias do mundo (excetuando-se a China) e uma economia com as mais amplas possibilidades. Tudo isso a serviço dos interesses econômicos das grandes metrópoles mundiais: ora Portugal, ora Inglaterra, ora Estados Unidos da América.

O fato é que os interesses internacionais para essa grande potencialidade eram sempre no sentido de mantê-lo como colônia, como exportador de matérias primas, como quintal, ou como diria Caio Prado Jr.: "Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos construímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isso. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras".

Nesse sentido, da mesma forma como foram combatidos de maneira espúria governos que, de alguma forma, tentaram alterar essa lógica, tais como os de Getúlio e Jango, cujo vetor passava por desenvolvimento nacional, com fortalecimento da indústria, garantia de alguns direitos sociais e maior diálogo com as forças sociais mais populares, os governos dos últimos 13 anos, frutos de uma ampla coalizão de forças, que abrigava a esquerda, o centro e setores da burguesia industrial e rentista, também foram combatidos, principalmente pelo caminho nacional que tentavam trilhar.

Além disso, foram nos últimos anos que foram dadas consequências reais àquilo que fora planejado há praticamente um século, àquilo que a revolução burguesa no Brasil, pós 30, precisava ter instaurado: um estado moderno, preparado para garantir o desenvolvimento e a competição num mercado cada vez mais globalizado. Foram nesses últimos 13 anos que conquistas sociais pensadas nesses tempos foram garantidas e aprofundadas. Se é verdade que Getúlio criou o salário mínimo, é verdade também que foi nos últimos 13 anos que seu aumento anual indexado foi garantido; se é verdade que Getúlio criou a Petrobras, foi nos últimos 13 anos que ela aumentou sua competitividade e descobriu o pré-sal; se é verdade que a Constituição de 88 prevê o direito à moradia e à educação, foi nos últimos 13 anos que programas como o Minha Casa, Minha Vida e o PROUNI foram criados.

A Crise do capitalismo e seus efeitos sobre as economias nacionais

Obviamento, num cenário de crise profunda do sistema capitalista, hodiernamente movido, sem exceção, pela lógica neoliberal, imperialista, conquistas como as que o Brasil obteve nos últimos anos "não cabem no PIB" da lógica dos entreguistas e neoliberais, ou como afirmara FHC: "é preciso acabar com a Era Vargas".

O fato é que o atual estágio de desenvolvimento do capitalismo mundial, rentista, cuja dimensão fictícia das riquezas dão as coordenadas sobre o que devem fazer os governos nacionais, as indústrias e os setores produtivos para salvar a riqueza dos grandes bancos do sistema financeiro, quanto menos barreiras existirem para a expansão dos seus "investimentos" (derivativos, dinheiro fictício, especulação na maioria das vezes), melhor.

Nesse sentido, num momento de crise das finanças no mundo, o que reflete no nível de hegemonia dos Estados Unidos da América, um governo como o dos últimos 13 anos é um obstáculo, pois, não por coincidência, foi, nesse período que a unipolaridade da governança mundial foi posta em cheque, tendo como um dos grandes responsáveis o Brasil, vide iniciativas como o BRICS e seu banco, o G20, UNASUL, CELAC e reestruturação do Mercosul.

De maneira devastadora, portanto, a troika tenta impor suas vontades, acabando com as economias nacionais e com o papel da política no seu sentido mais amplo, delegando a tecnocratas do mercado financeiro as decisões que precisam ser tomadas, não para salvar as economias nacionais, mas para salvar seus próprios interesses. Assim destruíram a economia da Grécia, Portugal e tantos outros; assim colocaram no comando de um país como a Itália um de seus párias.

No plano político, adotam uma espécie de nova "Doutrina Reagan", fechando o cerco contra todos aqueles que pensam diferente. Fecham o cerco à China no Mar da China e Oriente Médio, promovendo conflitos, ampliam as fronteiras da OTAN no sentido de enfrentamento a Rússia, patrocinando golpes como o da Ucrânia e estimulam conflitos de "baixa intensidade" na América Latina.

2013 e o ensaio do golpe

Para o Brasil, essa estratégia não é nova. Em 2013, motivados por grandes reivindicações populares pedindo mais direitos, melhores serviços públicos e uma melhor presença do estado na vida das pessoas, principalmente no que concerne ao direito à cidade, uma grande estratégia, já a partir dali, foi montada para direcionar as insatisfações populares contra a presidenta Dilma. Já ali afirmávamos em editorial da Princípios redigido por Adalberto Monteiro:

                                     "Agora, em junho de 2013, diante de uma explosão social, sem comando, a grande mídia, a serviço do campo político reacionário, não titubeou, percebeu uma grande oportunidade e procurou, ela própria, assumir a a direção das jornadas. Agiu, de modo escancarado, como um partido político, conclamou e arregimentou as massas para aderirem aos protestos, e tentou tutelar e manipular as manifestações, direcionando-as contra o governo e contra a liderança da presidenta Dilma Rousseff".

Estavam, ali, dadas as condições para a unidade do consórcio oposicionista que, mais tarde viria a derrubar Dilma Rousseff: mídia, oposição conservadora, setores rentistas, FIESP e classe média alta.

Nem tudo foram flores

Obviamente, um golpe das dimensões do que foi dado no Brasil, preparado há, pelo menos 3 anos, não é dado se as defesas não estiverem vulneráveis aos ataques inimigos. Nesse sentido, foram muitos os erros de condução, também, nesses últimos 13 anos, sobretudo da força dirigente hegemônica dentro desse processo.

Alguns dos erros mais importantes, com certeza, se referem a um certo despreparo (ou desprezo) ao enfrentar a real natureza do Estado brasileiro. Um estado cuja burguesia evitou, a todo custo envolver as massas nos movimentos políticos; um estado em que, mesmo após a Revolução de 30, manteve-se sua estrutura arcaica, assentada no latifúndio; um estado que, para se desenvolver, atrelou-se de maneira inquestionável ao imperialismo; um estado cujo à composição social, segundo Augusto Buonicore, "devem ser agregados os altos níveis salariais dos escalões superiores do poder executivo (burocracia civil e militar), legislativo e judiciário." Com uma estrutura burocrática que "leva à constituição de uma ideologia conservadora e meritocrática - apegada ao fetiche da divisão entre trabalho intelectual e manual, entre funções de mando e subordinadas e uma rejeição a qualquer controle externo, exercido pelas classes populares".

Nesse sentido, é notável a falta de pensamento estratégico para enfrentar essa natureza do estado brasileiro. Nesses 13 anos pouco se avançou para concretizar uma agenda de estado que, mesmo nos marcos do capitalismo, pudesse dar sequência às reformas que a burguesia, tanto em 30, quanto posteriormente, não quis ou não teve competência para aplicar: as reformas política, dos meios de comunicação, agrária, educacional, tributária etc.

Soma-se a isso o hegemonismo e exclusivismo da força dirigente, acrescida de um republicanismo inocente, que não soube ampliar onde era necessário, na superfície do poder republicano, estreitando ao máximo a distribuição de cargos no governo, e oferecendo as guardas àqueles que por 500 anos estiveram na estrutura do estado (judiciário, órgãos de controle, polícia federal).

Amplitude e questão nacional como vetores da tática 

Esses fatores, somados a tantos outros que não cabem neste artigo, não anulam a capacidade das forças progressistas brasileiras reagirem e voltarem a liderar um grande movimento de massas em torno da democracia e da resistência em torno das conquistas sociais que são ameaçadas pelo governo interino-golpista.

No entanto, para estabelecer a reação, é preciso 1º) reafirmar o caminho nacional como forma necessária para atingir o desenvolvimento, o equilíbrio das forças sociais e a manutenção do rumo socialista no Brasil, visto que na Era do Imperialismo, a grande maneira de resistir e lutar por um novo sistema econômico e social é ter uma nação forte, pujante, que possa garantir emprego, qualificação profissional, tecnologia de ponta e inovação, competitividade internacional e diversidade na sua matriz econômica, geridos por um estado moderno, forte, democrático e capaz de garantir igualdade de oportunidades, é preciso reafirmar a necessidade de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento; e 2º) criar um grande bloco de afinidades que, no momento atual, ultrapasse, inclusive a esquerda, mas que atinja setores amplos da nossa sociedade, incluindo empresários, artistas, setores produtivos etc., que identifiquem no caminho nacional e democrático a forma de sairmos da encruzilhada em que nos encontramos.

Para garantir esse bloco, urge construir pontes de afinidades com os mais variados atores da política nacional, sem contudo se isolar daqueles dos quais menos podemos nos isolar: o povo. O povo não pode virar um obstáculo, muito pelo contrário. No povo estão algumas das soluções econômicas e sociais para um país de 200 milhões de habitantes. Nesse sentido, nossa tática tem que ser clara, sem tergiversações que gerem incompreensões populares: isolar e dividir o lado de lá, mas juntar ao máximo o lado de cá, eis o caminho.

Por isso, a esse trabalho devem-se juntar todos aqueles que, sem restrições, acreditam nesse futuro democrático para o Brasil avançar. Sem o otimismo bestializado que acredita que em 2018 tudo pode voltar ao normal, nem com o pessimismo derrotista que não reconhece a jovialidade do nosso país, mas reconhecendo o futuro alvissareiro que temos pela frente. Mobilizar o povo ainda se faz necessário e bandeiras há para isso. O golpe é reversível, e para isso temos o instrumento correto: o voto, mobilizado e solicitado em torno de um plebiscito para que a soberania desse instrumento popular volte a ser respeitada. A vontade do povo, pela qual derramou-se tanto sangue precisa ser restabelecida. A guerra não acabou. Vamos à luta!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Faixa musical: Zeca Pagodinho - Um dos poetas do samba

A faixa musical de retomada do blog, pós hiato acadêmico de seu editor, é dedicada a um de nossos maiores sambistas e figuras mais fantásticas e humildes da música brasileira: Zeca Pagodinho. Em 1992, o bon vivant lançou seu oitavo álbum de carreira, intitulado "Um dos poetas do samba", uma obra de arte do verdadeiro samba brasileiro, com canções irreverentes como "Talarico, ladrão de mulher" e "Fumo do bom"; sambas românticos como "Quando quiseres" e sambas autênticos, reverenciando os antigos sambistas tais como a Velha Guarda da Portela.

Sem mais delongas, hora de escutar. Recomendo!



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Para salvar a democracia, muita rua e muita política!


O balanço desse pouco menos de um mês pós-golpe no Brasil,antes de mais nada, fazem cada cidadão e cidadã brasileira - mesmo os que apoiaram o impeachment da presidenta legitimamente eleita, Dilma Rousseff - se arrepiarem ao ver as trevas que cercam e dão o norte a esse governo interino-golpista de Michel Temer.

O golpe, assim como vários outros golpes dados no Brasil em outros momentos da história, baseou-se, para arregimentar algum apoio popular, em várias ilusões, em mentiras contadas para iludir o cidadão de bem insatisfeito sobretudo com a situação econômica do país. 

Muitos ouviram - e disseram - que a deposição da presidenta Dilma seria uma solução para economia, mesmo sabendo que a crise que por ora atinge o Brasil é reflexo de uma crise sistêmica, estrutural do capitalismo pelo mundo; origem de desemprego e baixíssimo crescimento das economias nacionais.

Os golpistas, acreditando na senha "tira Dilma que a bolsa cresce", esqueceram de algumas leis objetivas da economia e principalmente desprezaram o prestígio que o Brasil ganhou mundialmente nos últimos tempos, além da falta de confiança que o seu deus mercado tem em alguns dos artífices do golpe. Resultado: o baixo desempenho da economia continua, mesmo com os resultados das decisões econômicas tomadas por Dilma.

A segunda falácia, a de que não seriam retirados direitos adquiridos nos últimos anos também é ameaçada. Contratos do Minha Casa Minha Vida suspensos, ameaça de limitação da internet, regressão nos direitos trabalhistas, fim da política cultural, extinção de ministérios importantes e cortes de recursos para as áreas sociais. Nem nos piores pesadelos neoliberais imaginava-se isso!

A terceira e maior falácia, a do combate a corrupção, foi também a mais evidentemente desmascarada. Embora muitos de nós alertássemos sobre o verdadeiro sentido da tentativa de impeachment, poucos acreditavam que os usurpadores queriam mesmo era tomar conta do estado para poderem perpetuar seus negócios escusos e, sobretudo, parar a Lava-Jato.

As gravações de Sérgio Machado com figurões do PMDB expõem as vísceras do sistema politico brasileiro, levado ao mais subterrâneo dos níveis, desmoralizando a atividade política e aflorando ainda mais o sentimento de que, na política, todos são iguais. Os golpistas, nesse sentido, põem a política em risco.

O PCdoB, entendedor de que, fora da politica, o que se sobressai é o fascismo, a violência política e a desestabilização das instituições democráticas, propõe um saída política para o impasse que vivemos: restabelecer a soberania do voto, derrotando o impeachment no Senado e propondo um plebiscito para que o povo decida se teremos novas eleições ou não. Essa é uma saída que preserva a manutenção do voto como ponto central das decisões dos rumos do país; preserva a política como atividade importante para a democracia e derrota os golpistas, com fortes possibilidades de, numa nova eleição, reafirmar o combate à agenda neoliberal que, na mão grande, os golpistas tentam aplicar.

No entanto, a realização política é um exercício que deve ser praticado por vários atores e, com certeza, um dos principais são os movimentos sociais. Não tirar o pé da rua, nesse sentido, é essencial. É preciso continuar fazendo a denúncia do golpe, desestabilizando os golpistas e conquistando a adesão daqueles que, mesmo insatisfeitos com a condução petista, reconhecem o atraso que a agenda neoliberal impõe ao país, além da quebra do estado democrático de direito.

O golpe, contrarrevolucionário por natureza, como afirma Luís Fernandes, precisa ser enfrentado nas ruas, de forma que possamos resgatar o poder do voto e tenhamos chance de criar uma agenda propositiva e nacional. Para salvar o Brasil, a democracia e a política, é preciso travar uma guerra, e rua, com certeza, é uma das principais trincheiras pela qual precisamos passar. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Entre a participação, o oportunismo e a dispersão


Se é verdade que, mesmo sob as mais variadas formas de luta, ou sob as mais variadas ideologias, há uma imensa quantidade de lutadores do povo que, principalmente em anos eleitorais precisam ser apresentados à população para que, identificada com eles, possam fazer-lhes os dignos representantes dos seus anseios pela construção de um país menos desigual; é verdade, também que é preciso cuidar para, com a amplitude necessária, não caiamos em posturas oportunistas nem dispersivas.

A luta do povo, como é de conhecimento no mundo atual, reveste-se das mais variadas formas, por isso, é inteiramente justa a participação dos comunistas, daqueles cujas ideias mais avançadas tendem a dar a qualquer luta democrática o componente qualitativo, que faz, de uma bandeira específica, bandeiras para a emancipação da classe trabalhadora, cumprindo verdadeiro papel de vanguarda, contribuindo e conduzindo às massas a um processo de maior entendimento da luta política. No entanto, a esse elemento é fundamental o justo enraizamento e o verdadeiro entendimento dos motivos e necessidades de determinada comunidade, de determinado movimento. Nesse sentido, não há motivo para ir de encontro a qualquer organização popular.

Essa participação, no entanto, para cumprir o papel qualitativo que pode cumprir, requer uma justa mistura dos comunistas com a base popular, a ponto de fundir-se com o povo, como dizia João Amazonas. Não sendo dessa forma, recai-se no oportunismo, o qual pode ser praticado tanto pela direita quanto pela esquerda. Apropriar-se de movimentos reivindicatórios para autopromoção, por exemplo, é das práticas mais abomináveis que os protagonistas da esquerda podem realizar. Diante disso, aos comunistas, cabe, mais do que 'participar de todos os movimentos', gerar pautas com as quais as pessoas se identifiquem e pelas quais achem que vale a pena lutar. Com a reacesa luta pela democracia, por exemplo, abrem-se novíssimas possibilidades de agregar os mais diferentes setores da sociedade.

Ter foco, no momento atual então, é essencial. As lutas dos movimentos de tática diversionista, se não bem orientadas a fazer se suas lutas um passo para reconquistar e consolidar a democracia, correm o risco do sectarismo, oportunismo e sobretudo do corporativismo.

Por isso, para evitar a dispersão, três elementos não podem faltar no debate das entidades populares,e muito menos nas candidaturas municipais: democracia - com novas eleições diretas -, superação da crise econômica pelo viés do desenvolvimento e pela manutenção dos direitos e trabalhistas e soberania nacional.

Com esses elementos, faz-se de nossos discursos armas empunhadas em prol de um país forte e soberano, que vem sendo atacado de maneira brutal pelo império e seus agentes internos cujos objetivos passam longe de um republicanismo, quando na verdade a perpetuação de seus esquemas subterrâneos aparece como único motivo da derrubada de uma presidenta honesta.

Dizer não ao golpe e fazer essa defesa parece-me um caminho pelo qual devemos trilhar. Buscando cada vez mais adesões e fazendo da luta politica ambiente propício a cada vez mais participação popular de todos e todas que querem ver o país voltar ao rumo da democracia e desenvolvimento.

domingo, 22 de maio de 2016

Lutar pela democracia, agora e sempre!


Passados 10 dias do afastamento da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, uma marca importante é deixada por ela em todos os anos que esteve à frente da presidência do país, mas sobretudo no dia em que saiu do Palácio do Planalto: seu amor às causas democráticas.

Em seu pronunciamento, dito três vezes naquele fatídico dia, Dilma fez questão de manter sua militância mobilizada, entre outras coisas, por acreditar que a luta pela democracia é algo pelo qual devamos lutar constantemente e que a democracia é algo que precisamos cuidar, preservar para que ela não seja atacada como foi pelos golpistas hodiernos e de outrora.

Dilma está certa. No Brasil principalmente, o componente democrático, como que aflorando das contradições intrínsecas do capitalismo local, no nosso, caso principalmente entre entreguistas e nacionalistas, tem sido o fio condutor das mais importantes lutas políticas no país, sobretudo pós século XX.

Em entrevista ao blog da socialista morena, o governador do Maranhão, Flávio Dino, afirmou com felicidade ímpar: "foi uma ilusão acreditar na consciência democrática da elite brasileira". Verdade. A história de nosso país atesta essa afirmação pelas mais variadas formas de golpes de estado por que passamos. 

O Brasil, cuja fundação sob bases colonialistas tanto dizem sobre nossa formação social, país jovem, historicamente enfrenta dificuldades em afirmar sua soberania e democraticamente escolher os que conduzem a nação e qual o conteúdo de nossa trajetória. Nesse sentido, à nossa elite, mais anti-nacional impossível, sempre coube o papel de bagunçar as regras do jogo para atender aos interesses dos que colonizaram o nosso país: Portugal, Inglaterra, Estados Unidos.

Por isso, em momentos nos quais as crises cíclicas do capitalismo atingem as grandes finanças mundiais, no nosso país, é justamente o binômio soberania e democracia que é atacado. Não é à toa. A causa é bem nítida: para o império esse país de pouco mais de 500 anos, mas com a 5ª extensão territorial, 5ª população mundial, 7º PIB, precisa ser controlado e precisa servir aos seus interesses. E para isso, o império conta com uma elite subserviente e voraz.

Nesse sentido, aos que mesmo sob vieses politicamente diferentes, mas que lutam pelo desenvolvimento nacional, sob a égide de um país forte economicamente, que possa garantir melhorias para sua vida individualmente e coletivamente, é preciso manter a chama da luta pela democracia acesa. Sempre que ela foi atacada, foi atacada também a nossa economia e nossa soberania, afetando nossa inserção no mundo e a distribuição da riqueza e oportunidade que nosso país pode e deve fazer, garantindo justiça e paz social. Não baixar a cabeça, permanecer organizando os comitês contra o golpe são fundamentais para o momento. Temos chance, vamos à luta!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fernando Brito: Sob o mando de um vilão, que ainda ficará muito menor do que já é

Em Tijolaço:


Quando Leonel Brizola perdeu, por uma manobra judicial tramada por Golbery do Couto e Silva, a sigla do PTB de Vargas, Carlos Drummond de Andrade escreveu, no velho JB de de 1980:
Vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e fogos. Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro.
A política, vi as impurezas da política recobrindo sua pureza teórica. Ou o contrário.. Se ela é jogo, como pode ser pura… Se ela visa o bem geral, por que se nutre de combinações e até de fraudes?
A consumação do afastamento de Dilma Rousseff, às 6:34 de hoje, por truques jurídicos de um golpe parlamentar, virou história.
Triste, mas história.
Hoje não é dia de discutir como e porque chegamos a este desfecho, mas de abraçar a figura vencida e de abominar a do vencedor.
Chegará, sim, a hora da reflexão – muito mais do que acusação – sobre os erros cometidos, mas certamente não é essa.
Há algo mais grave, muito mais, do que qualquer erro que Dilma, ou Lula, ou o PT, ou mesmo toda a esquerda possam ter cometido.
É que nosso país, de tantas vilanias e de tantos vilões, está sob o mando de um rematado vilão, porque só o vil assim hipertrofiado é que poderia urdir a degola daquela (e daquele, porque também a Lula) a quem deve o lugar de seu substituto.
Não há, na história do país, exemplo igual de vilania. Nem Jango, nem Itamar Franco  tramaram contra Jânio e contra Collor. E o que fez Café Filho com Vargas é asséptico  perto da imundície de Michel Temer.
Imundície que não se resume nele, mas em todas as instituições que assistiram e promoveram a consumação deste esbulho: um acanalhado sem vergonhas, o Legislativo, e  o acanalhado pomposo, o Poder Judiciário.
Bem se vê que ambos não coraram de se acumpliciar ao regicídio, mesmo a maioria deles tendo feito parte da Corte.
Dilma não caiu por crimes, como os tantos da política, nem sequer os de responsabilidade. Basta um fato para demonstrá-lo: o sepulcral silêncio sobre o nome de Joaquim Levy, o ministro da Fazenda que planejou, redigiu e assinou os atos pelos quais Dilma é acusada.
Pois se admitir-se que Dilma “pedalou”, Levy preparou a bicicleta “engatilhada”.
A omissão do ex-ministro da Fazenda é, porém, uma nada perto do nanismo moral de Michel Temer.
Nanismo, o que é pior, sem sequer um sistema de freios e contrapesos parlamentar ou judicial que o possam tracionar.
O que vão faze-lo, por fraco, é comprimi-lo ainda mais ao rés do chão.
E por pequeno, moral e politicamente, transferirá para o povo que ilegitimamente passa a governar, todas estas pressões e compressões.
Passava pouco das seis e meia da manhã quando os últimos raios de luz despareceram do horizonte próximo.
Vamos ter de caminhar muito, junto do povo do qual nunca podemos nos apartar com aventuras, até vermos de novo a luz.

terça-feira, 3 de maio de 2016

É preciso remar

É preciso remar como quem ama
com os braços agarrar forte e enfrentar a corrente
com o coração mergulhar na revolta

mas é preciso lutar como quem rema
amar como quem reza
rezar como quem quer

E em meio às vagas que o mau tempo nos dá
construir mapas de navegação
orientes para os que almejam chegar à praia

ou no horizonte, do qual nos aproximamos
tão perto, tão longe
              tão perto, tão longe
                              tão perto, tão longe

do qual criamos imagens...e semelhanças!
fazendo-nos aquilo que (não) fomos
mas insistimos em fingir

e dizer.