terça-feira, 17 de março de 2015

Ocupar a luta nas cidades e unificar os movimentos sociais!



No curso da polarização em que a sociedade brasileira tem se encontrado nos últimos meses, um fenômeno perceptível há, no mínimo, dois anos, sobretudo com as manifestações de junho de 2013, tem sido a qualidade de vida nas cidades. No Recife, cidade cujo desenvolvimento, historicamente, entrou em contradição com a qualidade de vida da classe trabalhadora, reincidentemente tendo sido "jogada" à periferia, ou ao que alguns chamam de "não-cidade", movimentos cuja reivindicação principal passou a ser a valorização e melhor utilização dos espaços públicos passaram a ser protagonistas na cena da manguetown, como é o caso do movimento "Ocupe Estelita".

A relação proposta no título desse texto, parte, é claro, da certeira noção de que parte da insatisfação da denominada classe média para com a classe política parte da inviolável certeza de que, embora os avanços conquistados nos últimos anos, sobretudo relativos ao aumento do consumo da classe trabalhadora, não se desenvolveram em par de igualdade com o aumento da qualidade de vida de "casa para fora". Ou seja, ao cruzar a rua, a sociedade passou a se deparar com, ou perceber, serviços públicos de baixa qualidade.

Obviamente, num país cuja população é majoritariamente urbana, o direito à cidade passe a ser pauta prioritária dos movimentos sociais. Nas palavras de David Harvey, "O direito à cidade não é simplesmente o direito ao que já existe na cidade, mas é o direito de transformar a cidade em algo radicalmente diferente. Quando olho para a história, vejo que as cidades foram regidas pelo capital, mais do que pelas pessoas. Assim, nessa luta pelo direito à cidade, haverá também uma luta contra o capital."

Levando isso em consideração, é impossível fazer a luta pelo direito à cidade, por cidades mais humanas, sem propor, de maneira consciente, uma Reforma Urbana, já que, na luta contra o capital, é preciso denunciar o modelo de desenvolvimento que nos legou esses tipos de cidades. Mas ao levar em consideração tais elementos é inquestionável a necessidade de optarmos por projetos que, ao adotarem determinado modelo de desenvolvimento, possam realizar as transformações de que as cidades precisam.

O Recife, cidade cujo desenvolvimento sempre se deu às custas de seu patrimônio ambiental, histórico e cultural, viveu, no período mais recente, em torno da bandeira mais ampla de direito às cidades, um momento de grande efervescência após a idealização do projeto Novo Recife por um consórcio de empresas, cujo principal objetivo era a construção de um complexo de prédios em uma área de monumento histórico de nossa cidade - o Cais José Estelita. Surge, a partir daí, um movimento amplo, de tentativa de preservação de nossa história e melhor ocupação dos espaços da cidade.

No bojo das manifestações, vitórias e derrotas, adesões e tentativas de negociações se passaram, até que a adesão popular ao movimento tenha esfriado. Esse resfriamento, por ora devendo-se ao acirramento da luta política mais geral, além da inabilidade do movimento em dialogar de maneira mais propositiva, poderia ser revertido caso o movimento Ocupe Estelita se propusesse a fazer parte dessa luta política mais geral, afinal de contas, levando em consideração a radicalização da luta de classes no Brasil e as mais expostas contradições acerca dos modelos de desenvolvimento propostos, caberia uma simples pergunta ao movimento: "que projeto de país poderia garantir a cidade que queremos? Que projeto poderia garantir uma reforma urbana?"

No entanto é óbvio que essa reforma não seria feita do dia para a noite, sobretudo porque se trata de trilhões de reais que precisariam ser investidos em infraestrutura para garantir essa revolução urbana de que o país necessita. Mas torna-se ainda mais necessário, apontar para qual lado um movimento que almeje ser popular deseja ir. Fazer parte da história, fazer história e mudar a história impulsionando as mudanças e escolhendo um lado.

O Movimento Ocupe Estelita já obteve inúmeras vitórias, a mais recente, o tombamento do pátio ferroviário do José Estelita. Falta, agora, marchar em torno do único lado da luta que poderá dar inicio à construção de cidades mais humanas no Brasil. O movimento, assim como todos os outros de luta por mais direitos, precisa ser convocado a fazer parte dessa luta por mais democracia, pelo direito às cidades e contra o golpe. Vamos juntos!






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