quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Contra o esquerdismo de cada dia, calma, paciência e perseverança são atributos revolucionários


A luta de classes, no Brasil e no mundo, não começou ontem. No Brasil, não começou treze anos atrás e, no mundo, vem deixando suas marcas há muitos séculos. Ela, como fruto das contradições entre os possuidores e os despossuídos, tem séculos de existência e um vasto repertório de vitórias e derrotas para ambos os lados.

Para o nosso campo, obviamente, as derrotas são maiores numericamente, afinal de contas, no jogo da história, ainda estamos perdendo, mas nem por isso deixamos e deixaremos de lutar. Imaginem, por exemplo, como deveria ter sido dura a derrota dos jacobinos ao ver o rumo que a Revolução Francesa tomaria. Do fruto da luta daqueles homens e mulheres que viram a grandiosa revolução desaguar num período de terror de estado, monarquia e imperialismo, foram retiradas as lições que influenciaram as ideias socialistas que até os nossos dias nos inspiram.

É preciso pensar no comportamento de Lênin após a fracassada tentativa revolucionária de 1905. Recolhidos da derrota, motivaram-se e reinventaram-se para, doze anos depois, liderar forças e conduzir a Rússia ao maior acontecimento da história mundial no século XX. A Revolução Russa, mais do que uma vitória específica de um país específico, levou os capitalistas mundiais a derrotas profundas, a ter de, obrigatoriamente, garantir conquistas para os trabalhadores do mundo inteiro que, sem a Revolução, nunca teriam sido realizadas.

Lembrem como foi difícil para os comunistas brasileiros, nos seus 94 anos de história, terem seus líderes perseguidos - Prestes, João Amazonas, Maurício Grabois - por tantos governantes diferentes (Getúlio Vargas, Dutra, Militares). Ou como teria sido o baque que os comunistas sofreram ao tomar conhecimento dos documentos secretos do  XX Congresso do PCUS, gerando impacto no movimento comunista em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil.

Como seria o Brasil e sua posterior redemocratização se tivéssemos perdido o rumo e desistido da luta após a derrota no Araguaia, ou após a derrota das Diretas Já no parlamento brasileiro? Imaginem se os comunistas no mundo tivessem sucumbido ao decreto neoliberal do fim da história, após a Perestroika e o fim da URSS.

Em todos esses acontecimentos, vários foram os que abandonaram a luta e a crença no destino justo e vitorioso da humanidade. Uns, pela marca do derrotismo, sucumbiram às ideias neoliberais e ao niilismo dos fins do século XX; outros jogaram no lixo o legado que a história do movimento comunista nos colocou diante de 100 anos de luta, rejeitaram unilateralmente as nossas conquistas e sob verniz "de esquerda" passaram a adotar "novos métodos", "novas lutas"; lutas que diziam intensificar o caráter de esquerda, consumidos pelo tão antigo esquerdismo - o esquerdismo que combatera Marx na ocasião da unificação da Alemanha, o esquerdismo que combatera Lênin no início da Revolução, e que combateu Stálin em plena luta contra o nazifascismo.

No entanto, diante de tantas derrotas que a história já nos proporcionou, a bandeira comunista mantém-se firme, com a certeza de que a história, assim como a luta de classes, não acabou com o fim desses episódios. Os que acreditam na superação da sociedade de classes, mantiveram-se firmes e fortes, atualizando-se e reiterando a necessidade da construção de um mundo mais justo.

Em todos esses momentos, um exame minucioso de todas as experiências foram feitos. Alguns repetem o mantra da necessidade de "se reinventar", sem, contudo, reconhecer que é preciso fazê-lo sem perder o rumo, sem perder o sentido estratégico de nossa acumulação de forças e nossos objetivos reais.

No momento da derrota, vários se apegam à forma das lutas. Exigem mudanças de comportamento, posturas que reafirmem "o caráter de esquerda das organizações", e esquecem o conteúdo. Esquecem que o conteúdo das posturas esquerdistas é o conteúdo  contrarrevolucionário, neoliberal, do individualismo, do niilismo e da falta de crença na superação da luta de classes com protagonismo do proletariado, conduzido pelas ideias mais justas. Esquecem que o conteúdo das posturas esquerdistas, é o da falta de qualquer compromisso que não seja com a "sua imagem" e com os seus "princípios", como se a Revolução fosse feita por jogos de cena e pelo "comportamento". Esquecem que o conteúdo dos esquerdistas é o da traição, do abandono aos princípios emancipadores da classe trabalhadora.

Nas horas mais difíceis, cujo destino da humanidade e dos povos estava em jogo, foi a amplitude - e não o contrário - , a calma, a perseverança e o aguçamento do exercício tático que proporcionaram as mais belas viradas da história. Assim fez Lênin em 17; esse era o sentido do pacto Molotov - Ribbentrop na Segunda Guerra; assim os comunistas chineses fizeram para garantir os rumos da Revolução ao  pactuar com Chiang Kai-Shek, assim foi praticado pelos comunistas no Brasil para derrotar os militares no colégio eleitoral. Tudo isso feito, com muita calma, com muita certeza no sentido estratégico das lutas que estavam sendo travadas. 

Diante disso, aos lutadores de agora, é preciso manter essa calma e perseverança necessárias para atravessarmos o vendaval. Ser radical, com o perdão do clichê, é atacar a raiz do problema, sua essência. E no Brasil de hoje, a essência do fenômeno consiste em nos defendermos como forma de, num futuro próximo prepararmos as forças para a retomada do poder político, esse sim, o mais importante instrumento de transformação social. Mais uma vez, com amplitude, sem falsos moralismos e na busca incessante de unir o povo e dividir o inimigo. Só assim será possível mais uma vitória da humanidade, no rumo do socialismo. Por isso, estar vivo já é o suficiente para continuar lutando. Contra o esquerdismo de cada dia, calma, paciência e perseverança são atributos revolucionário.

sábado, 22 de outubro de 2016

Três décadas de social-democracia: e agora?


A redemocratização do Brasil se deu em meio a um período conturbado da história mundial, em seu conjunto. Se aqui passávamos por um estado de exceção, o mundo via sua forma multipolar chegar ao fim, com o fim da Guerra Fria e da União Soviética.

A existência, por si só, da URSS, como já é conhecido, além de ter motivado os golpes militares pelo mundo, sobretudo na América Latina, como forma de manter o domínio estadunidense sobre essa parte do mundo, também serviu como grande inspiração para a luta dos que resistiram ao período da Ditadura Militar no Brasil. Essa luta, até ter chegado no momento de ter-se tornado a luta de uma grande frente ampla pela democracia, teve o sacrifício e protagonismo de forças de esquerda - comunistas e socialistas - que buscavam, entre tantas formas de luta, também, a luta armada - seja no campo, seja na cidade.

A história, até chegar o fim da Ditadura Militar, teve muitas idas e vindas, avanços e recuos das forças democráticas, mas sobretudo, um verdadeiro avanço das lutas populares, que, pouco a pouco foi tirando força e poder dos militares. Estes, como sinalização do fim de seu período, deixaram, fisicamente, ideologicamente e institucionalmente, suas últimas marcas contra as lutas populares: primeiro a chacina da lapa, nos fins da década de 70, depois, no período de anistia e legalização dos partidos, a criação dos partidos social-democratas, entre eles o PT, PSDB E PDT, mas a permanente perseguição aos comunistas e a manutenção até o limite da clandestinidade da sigla comunista.

Em artigo publicado em 1981 na revista Princípios, João Amazonas já alertava sobre a natureza da social-democracia no mundo e sobretudo a que nascia no Brasil. Dizia o dirigente comunista:

"Em várias oportunidades, a social-democracia, por temor à revolução, abriu caminho para o fascismo ou para a direita mais conservadora. Hitler chegou a dominar o Reich graças à covardia da social-democracia alemã, que preferiu o tirano da cruz gamada à frente-única com os comunistas contra o hitlerismo."

Essa social-democracia, que, na Europa, há muito já desembarcara dos ideais de esquerda, embarcava no Brasil, tardiamente - muito pela falta de condições de terem se criado no Brasil, mesmo no período Vargas, quanto no período da Ditadura Militar - com força. Induzida pela classe dominante, como forma de dividir a classe trabalhadora e criar uma ilusão de conciliação de classes, cuja semente já havia sido plantada desde a cisão do partido comunista em 1962. Foi, então, na década de 80, com a criação do PSDB, PDT e PT, que a ideologia social-democrata assume força no Brasil.

Colocar, nas condições do Brasil atual, PSDB, PT e PDT no mesmo "balaio", embora pareça "constrangedor", visto o papel de nova UDN que o PSDB passou a cumprir nos anos subsequentes, não anula as semelhanças sob as quais os partidos foram fundados. 

"Entendam que os trabalhadores não tem só que sobreviver, mas tem que comer bem para continuar produzindo e poderem dar até mais lucros para as empresas", dizia Lula. "A social-democracia não quer acirrar as lutas de classes (...) afirma que a exploração e as desigualdades são superáveis - que uma distribuição mais equilibrada da riqueza é possível e necessária, sem que para isso a luta de classes precise virar uma guerra sangrenta", afirmava FHC.

O papel de UDN, de traidores da pátria e de entreguistas levou o PSDB e FHC à presidência do país, após mais uma enorme crise política - e por que não social - no país, pós impeachment de Collor. Como receita para acabar com a hiperinflação, aceitou-se desnacionalizar quase que por completo a economia do país, vendendo suas principais riquezas e empresas e adotando o mantra do superávit primário como forma de controlar a inflação - com juros altos e câmbio flutuante. Essa receita levou o país a mais uma grave crise econômica e social: altas taxas de desemprego, subserviência ao imperialismo estadunidense, salários baixos e pouca ou nenhuma perspectiva para os brasileiros.

Nesse sentido, a eleição de Lula em 2002 significa, sim uma ruptura, visto que vários dos elementos supracitados foram combatidos, entre eles: a subserviência ao imperialismo, as desigualdades sociais e regionais, além da prática do estado mínimo, conferindo ao estado verdadeiro papel de indutor da economia nacional. Por isso, não podemos passar, a partir desse momento histórico, uma régua e igualar as concepções dos dois períodos de governo - mesmo que sob ideologias social-democratas, sendo que uma sequestrada pela direita e pelo imperialismo, outra levada ao poder pelas forças populares e democráticas do país.

No entanto, como todo bom social-democrata, a conciliação de classes e o pouco sentido estratégico conduziram o PT a praticar uma política econômica híbrida -  se por um lado, ocupava-se em colocar o estado como indutor do desenvolvimento e da distribuição de renda, não mexeu na cota dos rentistas -, transferindo entre 40 e 48%  do orçamento para pagamento de juros da dívida e perpetuando o sagrado tripé macroeconômico de juros elevados, superávit primário e câmbio flutuante. 

Mesmo no período de maior popularidade desse projeto, esquivaram-se de realizar as reformas necessárias, mesmo no marco do capitalismo, entre elas, a reforma política, dos meios de comunicação e tributária.

Esse breve resumo, longe de querer apontar os dedos aos defeitos da força política que conduziu o maior processo de transformação social do Brasil ao longo de sua história, serve, pelo menos aos comunistas, para não criarmos ilusões acerca dos verdadeiros fenômenos e atores que estão à frente do processo de ocupação dos espaços políticos.

A missão revolucionária é árdua e exige de nós verdadeiro cuidado com a nossa própria organização, combatendo os dogmatismos, liberalismos e esquerdismos, a fim de unir as mais amplas camadas do povo em torno de uma transformação verdadeiramente profunda. As transformações da superfície, da aparência dos fenômenos sociais - mais do que tudo o que Marx afirmara ser sólido, "desmancha no ar". 

É assim, nesse país que por décadas rejeita uma revolução e aceita a social-democracia, velha, ultrapassada e recuada, que teremos o papel de conduzir uma revolução, por isso, sem ilusões, mãos à obra!




terça-feira, 4 de outubro de 2016

Aos vencedores, as batatas; aos lutadores, a história!


A magistral obra do escritor realista Machado de Assis, Quincas Borba, conta a história de Rubião, herdeiro do filósofo Quincas Borba, que, entre outras coisas houvera deixado um cachorro e um ensinamento filosófico ao qual a personagem denominava "Humanitismo", traduzida na seguinte frase: "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas".

O "Humanitismo" que a personagem defendia, consistia, entre outras coisas, na certeza de que o vencedor sempre será o mais forte, ou que, mesmo com uma vitória momentânea, os prêmios, muitas vezes, podem ser apenas mais combustíveis para continuar lutando e/ou vencendo. Ainda conforme Quincas, "a paz, nesse caso, é a destruição, a guerra é a conservação".

O que Machado de Assis, ao criar esse romance, não imaginaria é que o gosto das batatas dos tempos atuais fosse se tornar tão amargo para os vencedores. Afinal de contas, que sabor deverá ter a vitória obtida da forma que os golpistas brasileiros estão tendo neste momento?

Com certeza, o sabor das batatas que os golpistas obtiveram recentemente, pelo menos, deve ser melhor do que o gosto amargo da derrota que as forças de esquerda vem sofrendo desde 2014 no Brasil, apesar de ter conquistado, nas urnas, o direito de conduzir os rumos do país por mais 4 anos, interrompidos de maneira drástica pelas forças mais conservadoras do país.

No entanto, ao sabor amargo da derrota, juntam-se anos de lutas travadas pelas forças progressistas no país. Vitórias e derrotas - mais estas do que aquelas - marcaram a existência das forças que lutam por soberania nacional, antes mesmo do Brasil se tornar uma República, mas sobretudo depois de ter-se tornado e, ainda mais pós Revolução de 30.

Nesse período de República no país, várias foram as gerações que tiveram de resistir a uma maneira brutal de exercício da hegemonia econômica e ideológica praticado pelas forças dirigentes do país. 

Tivemos que conviver com duas ditaduras, com diversas tentativas - e realizações - de golpes, mas que sempre tiveram, mesmo nos momentos mais difíceis, a marca indelével da resistência e da persistência na luta pela democracia e soberania nacional.

Esses lutadores que por aqui passaram, incluindo-se aí todos os que derramaram seu sangue e viram suas vidas desmoronarem, devemos uma atuação tão corajosa quanto. Nos tempos de hoje, acentuados pela intolerância de parte considerável da classe trabalhadora, a resistência deverá ser a nossa maior forma de lutar.

Isso significa que, num período histórico em que houveram pouquíssimos espasmos de democracia no país, cada geração, com sua particularidade soube conduzir a resistência das forças populares e de esquerda do país. Cabe, portanto, a esta geração de militantes, dirigentes e demais lideranças protagonizarem o momento de sua geração e liderar a resistência, retornando a um maior diálogo com a população no geral, sempre no sentido de deslindar a essência dos fenômenos históricos e atuais.

O resultado do primeiro turno das eleições municipais é mais um dado de que o período não será fácil para a esquerda no país, obrigada, agora, além da defensiva estratégica, uma defensiva tática, cujos efeitos ainda serão sentidos a médio prazo.

No entanto, às forças progressistas cabe honrar a luta de todos aqueles que foram e que lutaram para que vivêssemos, mesmo por pouco tempo, períodos de verdadeiras conquistas sociais que não podem ser desmoronadas de uma hora pra outra. Tudo isso precisa ser realizado com ânimo e disposição para a luta, pois a o julgamento da história, este sim é implacável. Diante disso, a primeira atitude deve ser a de não se esconder, de não se envergonhar de tudo o que construímos nesse momento, pois como disse Darcy Ribeiro, "fracassei em tudo na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu."

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

As eleições para os comunistas em tempos de golpe


O golpe realizado pelas forças conservadoras do nosso país, mais do que atacar a democracia e o Estado Democrático de Direito, ataca profundamente a subjetividade, o ânimo e a vontade de ver realizadas, através do voto, as melhorias que as pessoas interessadas por um futuro digno do nosso país sempre almejaram. Isso porque o golpe ataca diretamente o acúmulo institucional que a esquerda e as forças progressistas alcançaram nos últimos tempos.

O valor dessa disputa institucional sempre foi questionado por setores da esquerda nesses 13 anos de conquistas por que passamos. Vários não entenderam a real profundidade da mudança que, mesmo lenta em determinados aspectos, estava sendo realizada através da institucionalidade, por dentro da democracia burguesa e através do voto.

Em que pese os erros acumulados nesse tempo, sobretudo no que diz respeito à educação das massas, ao aspecto da renovação de certezas existentes na superestrutura político-ideológica e um certo 'esvaziamento' de determinados setores dos movimentos sociais, além, é claro do 'encantamento' da força dirigente com as estruturas de poder, é um erro grave avaliar que o fracasso recente está relacionado a "exagero de disputa institucional". Muito pelo contrário. Se é possível - o que não acredito muito ser - creditar a algumas poucas palavras alguns dos motivos dos erros, um deles é, com certeza, a deficiência da realização de amplitude e do exercício da hegemonia política. Foi, e ainda é, nas condições históricas atuais do nosso país, através do voto e da não desejada aliança com setores de centro, conservadores e até reacionários, que as mudanças foram, são e serão realizadas, pelo menos num futuro próximo e médio.

Por isso, ao ver o debate em torno das eleições municipais, em que o cenário real, concreto é o de um varrimento da esquerda brasileira, um verdadeiro enxovalhamento, com prisões de nossos líderes sendo planejadas e executadas, com a ofensiva midiática, agora, tentando fazer crer que medidas regressivas adotadas pelo governo usurpador farão bem ao país, é preciso entender que nossa luta é - em cenário mais amplo de defensiva estratégica, e agora tática - lutar pela sobrevivência. Nesse sentido, a luta pela sobrevivência faz-se até mais amplamente, já que, para os comunistas essa luta existe há pelo menos 100 anos; mas falo dos mais amplos setores da esquerda, mesmo aqueles que não se enxergam nesse risco e não percebem a possibilidade de simplesmente deixarem de existir.

Talvez por não entenderem isso, ainda colocam em suas pautas diárias - entre líderes e militantes - o questionamento às alianças praticadas pelas forças políticas, em especial pelos comunistas, esquecendo que o golpe foi dado nessa seara, na institucionalidade que nos relegou a um isolamento grave, impossibilitados de diálogo com outras forças políticas que não fossem as nossas.

Diante desse cenário, de luta pela sobrevivência, os comunistas não se furtam de buscar alianças com os diferentes, num gesto claro de buscar sair do isolamento que, em grande parte, deve-se às insuficiências da força hegemônica desses últimos tempos, pela qual optamos por pagar o preço juntos, assim como as conquistas, mas que, no entanto, a depender dela, os comunistas talvez nem pudesse mais disputar eleições com sua legenda, já que foram claramente a favor de medidas restritivas como a cláusula de barreira.

O que fica claro para os comunistas, na análise concreta da realidade concreta, é que, no estágio atual da luta de classes no Brasil, não se logram conquistas reais para a população sem obter êxito eleitoral. A revolução não será obra da boa vontade de homens e mulheres, mas resultado da real correlação de forças e do curso da história, do acúmulo de forças por parte dos setores progressistas e de um real desenvolvimento econômico e social de nosso país, a começar pelas cidades.

Por isso, não será agora que os comunistas fugirão do desafio de encarar mais uma eleição, mesmo em cenário adverso, sob ataques da direita e dos amigos da esquerda, realizarão, esta semana, mais um vitorioso episódio de sua história, exercitando a rigidez de seus princípios e a flexibilidade da tática, dialogando com os diferentes, pois não se faz alianças apenas entre os iguais. A história comprova isso. 

Os comunistas estão acostumados, Brasil, em seus mais de 90 anos a fazer sacrifícios em torno da manutenção da vida de nossa legenda, combatida por esquerdistas, fascistas e neoliberais. A história não tem espaço para análises moralistas, oportunistas e fracas. Como diria Lênin, "é preciso sonhar, mas com a condição de crer em nossos sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossa fantasia". E é só assim, com os pés fincados na realidade concreta que serão realizadas as mudanças que a humanidade sonha e precisa, por dias de sol e socialismo e cidades mais humanas, vamos à luta!

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Perder pra jogar no mundo da CBF e dos inocentes úteis



Ontem à noite me preparei completamente para assistir ao primeiro jogo oficial do Santa Cruz contra um time estrangeiro em uma competição internacional, a Sul-Americana. Cerveja, tiragostos e o amor pelo clube do coração para presenciar esse momento histórico.

Retirando as expectativas frustradas de um futebol que há muito o Santinha não consegue demonstrar, cala fundo, também, a latente desorganização do futebol brasileiro. Afinal de contas, paralelo à participação de quatro clubes brasileiros na segunda mais importante competição de clubes da América Latina, acontecia a Copa do Brasil, a segunda mais importante competição de clubes do Brasil. E é, justamente, a existência paralela dessas duas competições e seus respectivos regulamentos que representam uma das coisas mais bizarras do futebol brasileiro.

Para os clubes brasileiros, classificados para a Copa Sul-Americana através de suas participações no campeonato brasileiro, além da Copa do Nordeste e Copa Verde, efetivarem sua participação nessa competição precisam perder (isso mesmo!) na Copa do Brasil. Essa aberração gera outras aberrações, como a participação mal intencionada de vários clubes, que entregam seus jogos para poder jogar a competição internacional. Ou seja, o regulamento legaliza entregar o jogo, já que não é nem dada a opção de o clube decidir, antes das competições começarem, qual ela deseja jogar.

Esses absurdos do futebol brasileiro só me fazem lembrar da quantidade de inocentes úteis que foram às ruas pedir o impeachment da presidenta Dilma vestindo a camisa da CBF, exemplo de dignidade e eficiência. Eficiência que sempre é questionada pela classe média em relação aos serviços públicos, como se nas iniciativas privadas - a CBF é uma - existisse o reino da eficiência.

A CBF é um arremedo de ladrões e incompetentes. São do tipo dos quais nem se pode dizer "rouba, mas faz", afinal de contas, do ponto de vista financeiro, a organização está repleta e bem paga. Os contratos de patrocínio são altíssimos, enquanto os clubes nacionais e jogadores têm de conviver com aberrações como essa e um calendário ridículo.

A CBF e a forma como se (des)organiza o futebol brasileiro é um retrato do Brasil que a classe média emburrecida e colonizada almeja: uma colônia, cheia de capitães do mato, vendendo barato aquilo que mais precioso temos e auferindo suas gordas gorjetas pelos campos do país. Uma vergonha, simplesmente.

domingo, 11 de setembro de 2016

Nenhum lugar me pertence

Viver é procurar lugar em que repousemos os pés
não há lugar pra ficar
sem ser o lugar de quem vence
majestade, alto, lar
nenhum lugar me pertence

andar é buscar em nós
o caminho que nos faz existir
pedra mágica elixir
pra quem não deseja sumir
sabedoria que convence
que nenhum lugar me pertence

então calar pra saciar
o ar que falta ao sorrir
estratégia um tanto vulgar
de quem não sabe partir
pra onde não consegue, nem que todo dia pense
em achar um lugar
que sabe que não lhe pertence

sábado, 3 de setembro de 2016

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!


A consolidação do golpe de estado perpetrado pelas forças mais conservadoras do país é, sem sombra de dúvidas, um dos episódios mais tristes da história republicana brasileira. Este blog já emitiu opiniões acerca das causas e desdobramentos dessa ruptura democrática, no entanto, as discussões afloram de rapidamente, procurando, agora, principalmente, reunir forças e estratégias para, num momento de defensiva tática, para que as forças de esquerda sobrevivam ao grande ataque - ainda maior - que vem por aí.

As primeiras impressões, mesmo antes do golpe se efetivar oficialmente (já que o fatídico dia 17 de abril é o verdadeiro dia do golpe), sempre foram catastróficas. O golpista Michel Temer, ainda interino, já promovia uma limpeza nas políticas sociais realizadas nos últimos 13 anos; em pouco mais de 30 dias , conquistas que demoraram décadas para se consolidar, como o aumento real do salário minimo, o direito à moradia e à universidade pública foram ameaçadas ou extintas. No entanto, o interino fazia questão de afirmar que "medidas impopulares" ainda precisariam ser tomadas; como se fosse possível fazer pior do que já estava fazendo. E sim, é possível.

Não obstante, o que gera mais indignação é que o golpe, em determinado momento, foi apoiado por uma parcela considerável das camadas médias urbanas e trabalhadores em geral. Muitos sem saber - ou sem acreditar - que o que estaria por vir seria tão prejudicial às conquistas obtidas nos últimos anos, aliás, no último século, já que a pretensão dos golpistas é concluir a obra que FHC tentou e não conseguiu: acabar com a era Vargas - leia-se acabar com  CLT, a Petrobras e o patrimônio nacional. Além, é claro, de jogar uma pá de cal na jovem democracia brasileira.

Sendo assim, o após a consolidação do golpe e as reais intenções sendo desmascaradas graças às redes sociais, cabe à classe trabalhadora e as camadas médias urbanas voltarem, através das organizações progressistas do país organizarem a resistência que, duramente terá  de ser travada.

É preciso, no momento atual, acabar com qualquer aparência de neutralidade na sociedade. O momento, embora muitos não acreditem, é tão grave quanto o vivido pelo país em 1964. 

Talvez por não acreditarem na capacidade das classes dominantes altear a regra do jogo que sucessivos erros tenham sido cometidos por todos os atores das forças progressistas nacionais, principalmente de 2013 pra cá.

Pra citar alguns exemplos, podemos lembrar da forte queda na taxa de juros promovida pela Presidenta Dilma Rousseff ao final de 2012, início de 2013; alterando aquilo que era central para a oligarquia financeira e rentista do país e de fora, e o silêncio do movimento sindical sobre o assunto naquele momento. Nenhuma manifestação corajosa de defender as medidas que o governo estava tomando.

Mais recentemente, o que se viu foi uma perplexidade geral. O povo, incluindo os beneficiários de programas sociais, assistiram a todas as mais recentes cenas da política brasileira atônitos, sem nenhuma reação. Uma parte - grande, por sinal - da responsabilidade sobre isso, deve-se à própria força hegemônica que, nem educou as massas o suficiente para fazerem sentir-se partícipes da mudança social ocorrida no Brasil e que, no período mais atual, primeiro negou-se a reconhecer que um golpe estava em curso e que, posteriormente, negou-se a buscar alternativas viáveis para enfrentar a situação no Brasil, negando-se a defender o que agora defendem: o plebiscito sobre novas eleições.

A esquerda brasileira, como um todo, é parte responsável por isso. Em muitos momentos faltou identificar o inimigo principal, tal qual a esquerda que, por muitas vezes, patinou no período da morte de Getúlio e a deposição de João Goulart.

No entanto, como sabemos que a história não acaba por aqui, é sempre tempo de rever as práticas e organizar a resistência, nucleada pela esquerda, mas apoiada pelo mais amplo leque de forças possíveis que defendam a democracia e o Estado Democrático de Direito. Tempos difíceis virão, mas a história está em nossas mãos, apenas começamos!