domingo, 12 de abril de 2015

Amanheceu

Amanheceu.

E naturalmente a luz te iniciava a jornada da vida.
E a teu conforto pudeste chegar
aconchegada no colo de quem te abrigou.

Fizeste os dias brilharem intensamente
e o balbucio meu das sensações indescritíveis
que o pedaço de papel não poderá nunca traduzir

Sou pelos olhos teus, enxergando a vida que virá
sou pelos sorrisos e pedidos
a esperança de te fazer entender essas palavras

que de maneira tonta demonstram
a embriaguez que o teu pólen solta pelo ar

queria que entendeste
na minha ensandecida brincadeira
o amor que de mim exala, a vida que de ti, para mim, se renova

queria que entendeste
a majestade que tu és
no reino de nós três
fazendo-se brilhar e dividindo a luz
que em nós se faz renovar.

sábado, 28 de março de 2015

Se Josué fosse vivo...















A fome como tema 

Certa vez, em seu livro "A Geografia da Fome", afirmou o médico, geógrafo, romancista e sociólogo Josué de Castro acerca do fenômeno da fome: "Ao lado dos preconceitos morais, os interesses econômicos das minorias dominantes também trabalhavam para escamotear o fenômeno da fome do panorama espiritual moderno. É que ao imperialismo econômico e ao comércio internacional a serviço do mesmo interessava que a produção, a distribuição e o consumo dos produtos alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fenômenos exclusivamente econômicos - dirigidos e estimulados dentro dos seus interesses econômicos - e não como fatos intimamente ligados aos interesses da saúde pública."[1]

Uma possível interpretação dessa afirmativa, ao tomar conhecimento da obra de Josué de Castro, é a preocupação constante que o pernambucano nutria para com aqueles que padeciam de fome e como esse "efeito colateral" do desenvolvimento capitalista que matava - e ainda mata - milhões de pessoas ao redor do mundo, e como matava no Brasil.

Engrenagem capitalista 

Esse "efeito colateral" sempre foi peça da engrenagem capitalista no Brasil. Um país de incontáveis recursos naturais que negou à imensa parcela populacional o direito de fazer três refeições diárias, alimentando, desde as eras de desenvolvimento baseado na exploração dos recursos naturais até recentemente, a lógica traduzida pelos militares de que era preciso "fazer o bolo crescer" para então dividi-lo. O fato é que foram 500 anos de manutenção da lógica de desenvolvimento em detrimento da qualidade de vida da maioria da população e, no mais alto grau, a negação do direito de se alimentar para milhões de brasileiros.

Segundo Josué de Castro, "com a extensão territorial de que o país dispõe e com sua infinta variedade de quadros climato-botânicos, seria possível produzir alimentos suficientes para nutrir racionalmente uma população várias vezes igual ao seu atual efetivo humano; e se nossos recursos alimentares são até certo ponto deficitários e nossos hábitos alimentares defeituosos, é que nossa estrutura econômico-social tem agido sempre num sentido desfavorável ao aproveitamento racional de nossas possibilidades geográficas."[2]

Com a tomada do neoliberalismo no Brasil, transformando nosso país num verdadeiro quintal do imperialismo estadunidense, passamos a obedecer cegamente a divisão internacional imperialista do trabalho, transformando-nos num país líder em produção de grãos, carne e outros produtos, mas deixando 60 milhões de brasileiros em situação de miséria, ao ponto de tomarem sopa de papelão e de ter a fome como manchete fixa dos jornais brasileiros.

Novos ares

Em 2003, com a chegada de Lula à Presidência da República, o primeiro passo foi dado em relação à crítica que Josué de Castro fazia sobre o fingimento com que era tratado o problema da fome no mundo, segundo o autor, o silêncio em torno da fome era premeditado pelos interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de "nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente."[3]

Lula, em seu discurso de posse no Congresso[4], cita a palavra fome 14 vezes, com destaque para as seguintes passagens:

Como disse em meu primeiro pronunciamento após a eleição, se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida. 


É por isso que hoje conclamo: Vamos acabar com a fome em nosso país. Transformemos o fim da fome em uma grande causa nacional, como foram no passado a criação da Petrobras e a memorável luta pela redemocratização do país.

Essa é uma causa que pode e deve ser de todos, sem distinção de classe, partido, ideologia. Em face do clamor dos que padecem o flagelo da fome, deve prevalecer o imperativo ético de somar forças, capacidades e instrumentos para defender o que é mais sagrado: a dignidade humana.


Necessidades materiais

Josué de Castro e Lula, longe de serem comunistas, aproximam-se ao afirmarem, através de suas práticas, da ideia de que é impossível garantir o desenvolvimento sem antes satisfazer as necessidades materiais. Para Stálin, "a lei econômica fundamental do socialismo é a garantia da máxima satisfação das necessidades materiais e culturais, sempre crescentes, de toda a sociedade, por meio do aumento e do aperfeiçoamento ininterruptos da produção socialista à base de uma técnica superior."[5]

Obviamente, mesmo não sendo à base de uma "produção socialista", foi o governo do presidente operário e a continuação desse projeto pela presidenta Dilma que garantiram ao Brasil que um contingente de 15,6 milhões de pessoas superassem a subalimentação e retirassem o país do vergonhoso mapa da fome, conforme relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Mesmo sabendo que ainda há 3,4 milhões de pessoas em estado de subalimentação, esses números e mudanças orgulhariam o ex-presidente da FAO, Josué de Castro, visto os números negativos da época em que viveu e os da década de 90.

"Ô, Josué, eu nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça"



Por isso, entre tantas outras razões, é de se imaginar que, à minoria privilegiada economicamente, sobre o papel lamentável de combater os anos de mudanças por que o Brasil tem passado. Ver, não apenas suas necessidades serem satisfeitas, mas as da maioria, é, de fato, inquietante para eles. Nesse quadro de intolerância e ódio, não é de se estranhar se víssemos faixas de "Fora, Josué!", caso ele fosse vivo, assim como fizeram com Paulo Freire. Essa elite, não incomodada com a miséria alheia, é ferozmente traduzida por Chico Science: "ô, Josué, eu nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça". Mas, aos brasileiros, como Josué, a mensagem de esperança dos que lutam por justiça: estamos vencendo a fome, a miséria e o esquecimento de milhões de brasileiros; vamos vencer os urubus e o ódio! 

Referências:

[1] CASTRO, Josué. Geografia da Fome. Editora Brasiliense, 5ª edição. São Paulo, 1957.
[2] idem.
[3] idem.
[4] http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u44275.shtml
[5]https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/materialismo/02.htm

segunda-feira, 23 de março de 2015

Dica musical: Breaking Benjamin

O blog "Verbalize" vem sempre trazendo algumas dicas musicais baseadas no gosto deste que vos escreve. Como as minhas referências musicais partem desde a época de adolescência e se desenvolve a cada som novo que escuto, fica difícil definir um gênero majoritário para as sugestões musicais aqui divulgadas.

Por isso, desta vez, fica a dica em torno dessa banda de metal alternativo e post-grunge, norte-americana, Breaking Benjamin, e seu álbum Saturate. O álbum, primeiro da banda, lançado em 2002, conta com singles como Polyamorous; Run Like Hell e Skin.

Para quem curtiu a adolescência e as bandas de rock surgidas na década de 90 e teve contato com bandas cuja voz rouca dos vocalistas era traço marcante, como Pearl Jam e Soundgarden, com certeza pode achar nessa banda pontos positivos para sua avaliação.

Fica a dica!




terça-feira, 17 de março de 2015

Ocupar a luta nas cidades e unificar os movimentos sociais!



No curso da polarização em que a sociedade brasileira tem se encontrado nos últimos meses, um fenômeno perceptível há, no mínimo, dois anos, sobretudo com as manifestações de junho de 2013, tem sido a qualidade de vida nas cidades. No Recife, cidade cujo desenvolvimento, historicamente, entrou em contradição com a qualidade de vida da classe trabalhadora, reincidentemente tendo sido "jogada" à periferia, ou ao que alguns chamam de "não-cidade", movimentos cuja reivindicação principal passou a ser a valorização e melhor utilização dos espaços públicos passaram a ser protagonistas na cena da manguetown, como é o caso do movimento "Ocupe Estelita".

A relação proposta no título desse texto, parte, é claro, da certeira noção de que parte da insatisfação da denominada classe média para com a classe política parte da inviolável certeza de que, embora os avanços conquistados nos últimos anos, sobretudo relativos ao aumento do consumo da classe trabalhadora, não se desenvolveram em par de igualdade com o aumento da qualidade de vida de "casa para fora". Ou seja, ao cruzar a rua, a sociedade passou a se deparar com, ou perceber, serviços públicos de baixa qualidade.

Obviamente, num país cuja população é majoritariamente urbana, o direito à cidade passe a ser pauta prioritária dos movimentos sociais. Nas palavras de David Harvey, "O direito à cidade não é simplesmente o direito ao que já existe na cidade, mas é o direito de transformar a cidade em algo radicalmente diferente. Quando olho para a história, vejo que as cidades foram regidas pelo capital, mais do que pelas pessoas. Assim, nessa luta pelo direito à cidade, haverá também uma luta contra o capital."

Levando isso em consideração, é impossível fazer a luta pelo direito à cidade, por cidades mais humanas, sem propor, de maneira consciente, uma Reforma Urbana, já que, na luta contra o capital, é preciso denunciar o modelo de desenvolvimento que nos legou esses tipos de cidades. Mas ao levar em consideração tais elementos é inquestionável a necessidade de optarmos por projetos que, ao adotarem determinado modelo de desenvolvimento, possam realizar as transformações de que as cidades precisam.

O Recife, cidade cujo desenvolvimento sempre se deu às custas de seu patrimônio ambiental, histórico e cultural, viveu, no período mais recente, em torno da bandeira mais ampla de direito às cidades, um momento de grande efervescência após a idealização do projeto Novo Recife por um consórcio de empresas, cujo principal objetivo era a construção de um complexo de prédios em uma área de monumento histórico de nossa cidade - o Cais José Estelita. Surge, a partir daí, um movimento amplo, de tentativa de preservação de nossa história e melhor ocupação dos espaços da cidade.

No bojo das manifestações, vitórias e derrotas, adesões e tentativas de negociações se passaram, até que a adesão popular ao movimento tenha esfriado. Esse resfriamento, por ora devendo-se ao acirramento da luta política mais geral, além da inabilidade do movimento em dialogar de maneira mais propositiva, poderia ser revertido caso o movimento Ocupe Estelita se propusesse a fazer parte dessa luta política mais geral, afinal de contas, levando em consideração a radicalização da luta de classes no Brasil e as mais expostas contradições acerca dos modelos de desenvolvimento propostos, caberia uma simples pergunta ao movimento: "que projeto de país poderia garantir a cidade que queremos? Que projeto poderia garantir uma reforma urbana?"

No entanto é óbvio que essa reforma não seria feita do dia para a noite, sobretudo porque se trata de trilhões de reais que precisariam ser investidos em infraestrutura para garantir essa revolução urbana de que o país necessita. Mas torna-se ainda mais necessário, apontar para qual lado um movimento que almeje ser popular deseja ir. Fazer parte da história, fazer história e mudar a história impulsionando as mudanças e escolhendo um lado.

O Movimento Ocupe Estelita já obteve inúmeras vitórias, a mais recente, o tombamento do pátio ferroviário do José Estelita. Falta, agora, marchar em torno do único lado da luta que poderá dar inicio à construção de cidades mais humanas no Brasil. O movimento, assim como todos os outros de luta por mais direitos, precisa ser convocado a fazer parte dessa luta por mais democracia, pelo direito às cidades e contra o golpe. Vamos juntos!






quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Wallace Melo e Nilson Vellazquez: JUVENTUDE E TRABALHO: AS CONTRADIÇÕES DO PRIMEIRO EMPREGO E A EXPLORAÇÃO NO SETOR DE TELEMARKETING

“ O processo de produção capitalista, considerado em sua continuidade ou como processo de reprodução não produz, portanto, somente mercadorias ou a mais-valia; produz e reproduz a própria relação capitalista: de um lado o capitalista, de outro, o assalariado.”
Marx - O Capital

A construção das relações e dos direitos trabalhistas no país se efetivou mediante contextos sociais pautados pelos antagonismos e pelas disputas de interesses entre os representantes direto do capital e os trabalhadores. Nesse sentido, as políticas e os métodos de recrutamento de mão-de-obra que historicamente foram instituídos ao longo do tempo também derivaram dessas contradições, e assim, sua análise nos permite um entendimento mais aprofundado sobre os valores e contrastes presentes no mundo capitalista.

Sem prejuízo ao que será tratado adiante, torna-se até oportuno ressaltar que dentro da lógica hegemônica do mundo laboral, o trabalhador se vincula diretamente à produção, tornando-se “servo” de uma relação no qual, quanto “mais valores cria, mas sem valor e indigno ele se torna”. (MARX, 1844). A exploração dita o cotidiano do trabalho. O direito por sua vez, enquanto produto de reflexões e das doutrinas filosóficas, jurídicas e sociais, também se orienta pela pragmática. Diante disso, a realidade que se apresenta à classe trabalhadora – mesmo sendo essa, construída a partir de uma mediação entre os diferentes interesses econômicos e atores envolvidos - ainda é a concretização da hegemonia dos valores oriundos do mundo burguês.

Os paradigmas que regem o mundo do trabalho relega aos menos favorecidos todas as mazelas sociais. Em nome da sobrevivência, milhares de trabalhadores se obrigam a conviver e a naturalizarem em suas vidas as regras do sistema capitalista, restando apenas – enquanto defesa de sua integridade, dignidade e interesse enquanto classe social - a sua capacidade de organização sindical e o apelo ao cumprimento da legislação trabalhista. Mas ainda há um grande abismo que separa entre o dito e o feito, o real e o ideal.

Contextualizando o que foi dito, podemos avaliar o caso da fiscalização feita pelos auditores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no prédio da Contax, localizada no bairro de Santo Amaro, Recife/PE como om exímio exemplo de exploração, terceirização e desrespeito às leis e aos direitos humanos. A instituição citada é conhecida em todo o país, notável é a sua importância econômica para o setor de telemarketing, o departamento de recursos humanos da empresa é responsável pela constante contratação de grande quantidade de trabalhadores para atuarem nas suas diversas filiais. O público selecionado é em sua maioria jovem e que normalmente são recrutados  prestar serviços aos bancos e empresas de telefonia, destacando-se as seguintes instituições: Oi, Vivo, Santander, Itaú, NET, Citibank e Bradesco.

E diante desse contexto, a organização do trabalho encontrada dentro do setor de telemarketig é orientada  na maioria das vezes pela parte mais nociva da terceirização. Muitas cobranças, metas faraônicas e amplo grau de desrespeito à integridade física e moral dos funcionários. Os baixos salários são antagônicos aos contratos milionários que as empresas que atuam no setor fazem com seus clientes maiores. E dentro desses postos de trabalhos encontramos um verdadeiro mundo de ilusões. O convite ao emprego e a ascensão profissional obriga a uma sujeição de regras e metas assustadoras, institucionalizando assim um ambiente de exploração, semiescravidão, agressão aos direitos humanos, assédio moral e doenças laborais (depressão, síndrome do pânico etc).


As normas impostas pelo setor chegam a contradizer a própria legislação trabalhista e a todos os princípios que norteiam uma concepção de trabalho decente. No caso da Contax, foram notados pelos auditores do Ministério do Trabalho e Emprego casos de proibições restritas a idas ao banheiros, imposições severas às trabalhadoras gestantes e lactantes, metas humanamente impossíveis de serem alcançadas, não emissão de contracheque, dívidas de FGTS, débitos salariais etc.

Nesse sentido, tanto para os recém ingressos no mundo do trabalho, quanto para os que acompanham e mobilizam pelas causas da juventude, nunca foi segredo para ninguém as condições degradantes a que são submetidos os funcionários do telemarketing, em especial os da Contax. Por trás de toda a exigência de tratar bem o cliente, há, naquele ambiente, desrespeitos a direitos trabalhistas e exacerbação da carga de trabalho proposta.

Por isso, nós dos movimentos sociais, repudiamos veementemente o descumprimento das leis trabalhistas pela empresa Contax, bem como toda exploração e precarização do trabalho, principalmente da juventude. Cientes de que a maior parte do público trabalhador dessa empresa faz parte dessa fase etária, fazemos refletir sobre o grau de comprometimento do empresariado nacional para com o desenvolvimento que leve em conta os aspectos humanos e não apenas os números e metas.

Sabemos, também, como afirmamos acima, que esse episódio é apenas mais um sintoma de um mal maior que é a terceirização do trabalho. As empresas mencionadas acima, entre elas grandes bancos, passam impunes, pois os vínculos empregatícios são completamente precários, elevando à máxima potência o grau de exploração a que esses setores submetem a classe trabalhadora. Portanto, fazer desse episódio mola propulsora para combater a exploração sem limites do trabalhador e combater a terceirização fazem parte de nossa agenda como formas de garantir um desenvolvimento em que a classe trabalhadora e a juventude estejam inseridas nesse processo, contra todos aqueles que desrespeitem o trabalhador e a juventude: não passarão!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Educação brasileira: os próximos passos

A chegada de Lula ao poder em 2003, mesmo guardando a devida prioridade ao fim da miséria, através, sobretudo, de programas de transferência de renda, não poderia deixar a segundo plano aspectos fundamentais para a constituição de uma nação soberana; dentre esses aspectos, a sociedade brasileira clamava por uma mudança profunda na educação. Hoje, a educação não sai das bocas e dos discursos de candidatos, sociedade e movimentos sociais. As mudanças aconteceram, mas por que tanta gente ainda clama por mudanças na educação?

Se pudermos olhar um pouco mais para trás, reconheceremos as inúmeras medidas para as conquistas recentes: a ampliação do número de escolas técnicas federais - com a criação dos IF's -; aumento do número de vagas nas universidades federais, com criação de mais universidades e sua interiorização; criação do PROUNI, cotas e REUNI.

Podemos, dessa forma, afirmar sem nenhum medo, que a pauta do acesso, embora hoje ainda seja de 16% a taxa de jovens nas universidades, foi de certa forma superada, mas seus resultados passarão a ser sentidos mais a médio ou longo prazo. Essas conquistas foram efetivadas graças à imensa mobilização dos movimentos sociais, sobretudo da UNE e UBES, que imediatamente depois à conquista de elegermos um operário presidente tinha uma pauta de reivindicações a ser entregue e seus resultados vemos hoje.

A constatação de que muito foi conquistado ao proporcionarmos o acesso não nos imobiliza; muito menos a de que muito há pra fazer nos desespera. É preciso, agora, discutirmos que educação queremos.

O desafio atual, a médio prazo, é discutir o modelo educacional brasileiro, levando em conta, principalmente, a elevação da condição social de mais de 30 milhões de brasileiros. Esses brasileiros, são, em sua grande maioria, jovens que, além de beneficiários dos programas de transferência de renda, beneficiaram-se com programas educacionais como PRONATEC, cotas e PROUNI. Como para cada passo dado uma nova necessidade é criada, é preciso refletir sobre que formação essa "nova classe média" está recebendo. Exemplo maior dessa reflexão é saber que mais de 1 milhão de jovens ingressaram nas universidades através do PROUNI que, junto ao FIES e outras bolsas, contribuem para que a maioria dos estudantes universitários do país estejam em instituições de ensino particulares, cuja lei do mercado regula o tipo de educação dada; muitas vezes - na grande maioria - de baixa qualidade e formadora de cidadãos cujas principais referências são o senso comum: ódio à política; pouca formação crítica e baixíssimo conhecimento de mundo; interessando-se pura e exclusivamente pelas suas áreas de conhecimento e tendo como fontes de informação - quando tem - Veja e Jornal Nacional, ajudando a explicar o fenômeno conservador das eleições recentes

Cabe ao movimento educacional, portanto, incluir na sua agenda o tema da Reforma Universitária com mais afinco, pois, conquistados os recursos, é preciso definir o seu uso: professores valorizados, discussão dos currículos no ensino fundamental, médio e superior, infraestrutura de qualidade. A disputa por um modelo de universidade democrático e de qualidade para o próximo período não se resume à vida universitária, mas influencia no modelo de sociedade e de desenvolvimento que queremos, inclusive na educação básica.

A reforma educacional que queremos deve perseguir a formação de cidadãos críticos, interessados na soberania nacional e em desenvolver o país. Para isso, garantir a permanência dos estudantes nas universidades, instituir os ciclos básicos e acabar com os departamentos são pautas que crescem em importância para os debates vindouros. Transformar a educação brasileira é condição basilar para um novo projeto nacional de desenvolvimento. Suas mudanças são lentas, graduais, mas duradouras, permanentes e sólidas. Bases essenciais de uma nação forte e soberana.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O Brasil de hoje: necessidades e mudança


O Brasil tem vivido nos últimos três anos, sem sombra de dúvidas, momentos dos mais importantes da sua história. Os episódios vivenciados recentemente possibilitam que os livros de história de anos subsequentes lembrem desses dias dando-lhes o devido destaque. Afirmo isso três meses após àquela que pode ser chamada de a mais disputada das eleições presidenciais "dos últimos tempos" e na expectativa de quatro anos de um governo novo, preparado para reafirmar posturas que possam beneficiar o povo brasileiro.

Nunca é demais, portanto, relembrarmos por que afirmo serem os últimos três anos e não mais, incluindo aí os 8 anos de governo Lula. Afinal de contas, é óbvio e até repetitivo afirmar o sentido histórico da eleição e governo do Lula para o Brasil, tendo inclusive, a partir de seu governo os desdobramentos dos episódios que mencionarei.

A eleição do primeiro presidente operário, além de ter representado uma grande vitória das forças progressistas, democráticas e nacionais, teve como sentido maior a união de brasileiros em torno de finalizar um processo histórico de ausência do estado no suprimento de necessidades básicas do povo, tendo como elemento central o direito à alimentação. Para isso, programas como o Fome Zero e, posteriormente, o Bolsa Família foram fundo naquilo que mais abismava brasileiros e não-brasileiros acerca da nossa realidade: como um país dessa dimensão, como tamanha riqueza, entre as maiores economias do mundo, líder de produção em diversos setores agrícolas produz tanta miséria? Como um país como esse tem 40 milhões de miseráveis?

O Governo Lula, dessa forma, perseguiu de maneira exemplar o fim dessa trágica situação nacional e, sobre esse objetivo, obteve sucesso. Para isso, precisou levar a cabo um programa de governo que conciliava os mais variados setores de nossa sociedade: trabalhadores, banqueiros, burguesia produtiva nacional, sub-proletariado etc.. Um governo com essa variedade, obviamente, tem limites. Porém, nenhum limite sobrepõe-se à mudança na qualidade de vida do brasileiro, que passou a fazer três refeições por dia, ter seu emprego, estudar e consumir; de modo que, bem resumidamente, podemos afirmar: Lula venceu.

Coube a Dilma, oito anos após essa etapa, proclamar o lema "avançar, avançar e avançar". Dilma Vana Rousseff, primeira mulher presidenta do Brasil, tem histórico na luta armada contra a Ditadura. Guerrilheira, não se absteve de tentar em meio a uma grave crise mundial trazer seu governo mais à esquerda e avançar na qualidade de vida do povo. É a partir disso que começam os três episódios mais marcantes de seu primeiro governo.

Em agosto de 2012, Dilma inicia, com a redução de 0,50% na taxa SELIC, a maior queda da taxa de juros da história do país, chegando a seu menor número até abril de 2013. Em janeiro de 2013, a presidenta anuncia a redução na conta de energia de todo o país, mesmo com os governadores tucanos boicotando sua decisão. E, finalmente, em junho de 2013, enfrenta as maiores manifestações populares do país, desde o impeachment do presidente Collor.

É a partir desse momento que as contradições de um governo de coalizão e de um modelo de desenvolvimento voltado majoritariamente para o consumo passam a ser questionadas, sem, em nenhum momento, pedir que esse ciclo acabasse, e sim, que avançasse. Obviamente, um ano e meio depois das manifestações, sobra-nos um saldo de necessidades novas que foram cobradas a ferro e fogo: serviços públicos de qualidade e mais direitos. Mas não anula a evidência de - sobretudo após os resultados das últimas eleições e ascenso da direita - uma maior articulação e organização de grupos de direita (anarquistas, fascistas) perturbados pela perda de privilégios. A ebulição e a contradição gerada no seio do estado burguês brasileiro são explicadas, em grande parte, pela mudança que a eleição de um operário gerou e à luta incessante do novo com o velho. Como diz Erwin Marquitt, "a própria mudança constitui também, uma unidade de opostos. De modo geral, um sistema que atravessa uma mudança está se tornando algo que ele não era e está deixando de ser o que era." Essas mudanças, não obstante, geram mudanças nas necessidades - categoria dialética sobre a qual afirma Lênin: "se isto é possível ou impossível, depende do conteúdo, isto é da totalidade dos momentos da realidade, que no seu desdobramento se mostra como necessidade". Dessa forma, a realidade atual, de avanços e recuos, de conquistas e de disputas - vide os números apertados da última eleição e o eterno terceiro turno - levam-nos a voltarmos os olhos para novas necessidades, novo governo, novas ideias, pois as necessidades estão em constante evolução.

O significado histórico da presença de 16 anos das forças progressistas renovam as chances e as expectativas de verem essas necessidades serem transformadas em outras necessidades, em outras possibilidades, em novas realidades. Não fosse a presença do PT e seu arco de forças aliadas no poder, entre elas o PCdoB, as necessidades levadas em contas seriam as mesmas de 500 anos atrás: manutenção de privilégios e de um status quo. Realizar as mudanças que queremos exige uma luta ainda mais valente em torno da consecução vitoriosa desse projeto, reconhecendo que a sociedade está mobilizada para os dois lados da balança, num equilíbrio frágil, cujo ator principal pode e deve ser aqueles que atuam com os pés fincados na realidade, em busca de mudanças reais para a vida do brasileiro e da classe trabalhadora, um Brasil de direitos, conquistas, justiça e igualdade. O Brasil que merecemos.