sábado, 3 de setembro de 2016

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!


A consolidação do golpe de estado perpetrado pelas forças mais conservadoras do país é, sem sombra de dúvidas, um dos episódios mais tristes da história republicana brasileira. Este blog já emitiu opiniões acerca das causas e desdobramentos dessa ruptura democrática, no entanto, as discussões afloram de rapidamente, procurando, agora, principalmente, reunir forças e estratégias para, num momento de defensiva tática, para que as forças de esquerda sobrevivam ao grande ataque - ainda maior - que vem por aí.

As primeiras impressões, mesmo antes do golpe se efetivar oficialmente (já que o fatídico dia 17 de abril é o verdadeiro dia do golpe), sempre foram catastróficas. O golpista Michel Temer, ainda interino, já promovia uma limpeza nas políticas sociais realizadas nos últimos 13 anos; em pouco mais de 30 dias , conquistas que demoraram décadas para se consolidar, como o aumento real do salário minimo, o direito à moradia e à universidade pública foram ameaçadas ou extintas. No entanto, o interino fazia questão de afirmar que "medidas impopulares" ainda precisariam ser tomadas; como se fosse possível fazer pior do que já estava fazendo. E sim, é possível.

Não obstante, o que gera mais indignação é que o golpe, em determinado momento, foi apoiado por uma parcela considerável das camadas médias urbanas e trabalhadores em geral. Muitos sem saber - ou sem acreditar - que o que estaria por vir seria tão prejudicial às conquistas obtidas nos últimos anos, aliás, no último século, já que a pretensão dos golpistas é concluir a obra que FHC tentou e não conseguiu: acabar com a era Vargas - leia-se acabar com  CLT, a Petrobras e o patrimônio nacional. Além, é claro, de jogar uma pá de cal na jovem democracia brasileira.

Sendo assim, o após a consolidação do golpe e as reais intenções sendo desmascaradas graças às redes sociais, cabe à classe trabalhadora e as camadas médias urbanas voltarem, através das organizações progressistas do país organizarem a resistência que, duramente terá  de ser travada.

É preciso, no momento atual, acabar com qualquer aparência de neutralidade na sociedade. O momento, embora muitos não acreditem, é tão grave quanto o vivido pelo país em 1964. 

Talvez por não acreditarem na capacidade das classes dominantes altear a regra do jogo que sucessivos erros tenham sido cometidos por todos os atores das forças progressistas nacionais, principalmente de 2013 pra cá.

Pra citar alguns exemplos, podemos lembrar da forte queda na taxa de juros promovida pela Presidenta Dilma Rousseff ao final de 2012, início de 2013; alterando aquilo que era central para a oligarquia financeira e rentista do país e de fora, e o silêncio do movimento sindical sobre o assunto naquele momento. Nenhuma manifestação corajosa de defender as medidas que o governo estava tomando.

Mais recentemente, o que se viu foi uma perplexidade geral. O povo, incluindo os beneficiários de programas sociais, assistiram a todas as mais recentes cenas da política brasileira atônitos, sem nenhuma reação. Uma parte - grande, por sinal - da responsabilidade sobre isso, deve-se à própria força hegemônica que, nem educou as massas o suficiente para fazerem sentir-se partícipes da mudança social ocorrida no Brasil e que, no período mais atual, primeiro negou-se a reconhecer que um golpe estava em curso e que, posteriormente, negou-se a buscar alternativas viáveis para enfrentar a situação no Brasil, negando-se a defender o que agora defendem: o plebiscito sobre novas eleições.

A esquerda brasileira, como um todo, é parte responsável por isso. Em muitos momentos faltou identificar o inimigo principal, tal qual a esquerda que, por muitas vezes, patinou no período da morte de Getúlio e a deposição de João Goulart.

No entanto, como sabemos que a história não acaba por aqui, é sempre tempo de rever as práticas e organizar a resistência, nucleada pela esquerda, mas apoiada pelo mais amplo leque de forças possíveis que defendam a democracia e o Estado Democrático de Direito. Tempos difíceis virão, mas a história está em nossas mãos, apenas começamos!

sábado, 27 de agosto de 2016

As Olimpíadas e o fim do respeito às regras do jogo




Amanhã fará uma semana que as Olimpíadas do Rio de Janeiro foram encerradas e, junto com ela, foi-se um grande aprendizado que só o esporte pode dar.

Afinal de contas, ultimamente, aqui no Brasil, só através do esporte podemos conviver com as diferenças e com as regras do jogo e da democracia como vivemos nas Olimpíadas. Poderíamos dizer que os jogos são uma grande lição para os senadores brasileiros que essa semana julgam a honrada, honesta e ilibada presidenta Dilma Rousseff.

Os esportes não deixaram a grande imprensa mentir - embora tenham tentado - como mentem na narrativa sobre o golpe que está sendo dado no Brasil. Os atletas, dos mais variados esportes, usaram os microfones para agradecer a oportunidade que os governos Lula e Dilma deu a eles de aumentarem seus rendimentos e ter a oportunidade de competir. O COB, mesmo sem citar Lula e Dilma, pediu para que o modelo de financiamento do esporte no Brasil fosse mantido e, mesmo assim, nenhuma palavra da grande mídia sobre as conquistas realizadas pelos governos Lula e Dilma sobre os esportes.

Alguns atletas foram mais longe. Denunciaram a onda reacionária no Brasil e seus representantes como Bolsonaro e Feliciano. E mesmo assim, silêncio total da grande imprensa, que preparava ansiosamente seu show de horrores que começou no último dia 25.

As Olimpíadas, mais do que uma lição aos políticos e aos brasileiros em geral, bem que podia ensinar alguma coisa a nossa imprensa, algo sobre honestidade e defesa de bons princípios, sobre convivência democrática e respeito às diferenças. Algo que passou longe nesses últimos treze anos para a imprensa brasileira, partidária e cheia de ódio. 

As Olimpíadas poderiam ter ensinado, através dos exemplos mais variados, que ao se perder uma competição, outra virá quatro anos depois, e então pode-se preparar e voltar com novas técnicas, mais bem preparado, para ganhar o jogo.

Nossa elite não aprendeu isso nunca. Abreviaram o "ciclo olímpico" e no tapetão tentam levar a medalha de ouro que o povo brasileiro há quatro eleições não lhe concedeu. E dessa forma, com um judiciário e demais instituições "dopadas", levam-nos a medalha mais suada de nossa história: a democracia.

E do mesmo jeito que tentaram esconder as causas do melhor desempenho do Brasil na história das Olimpíadas, tentam esconder - muito mal - o que o mundo todo já sabe: que esse processo de impeachment se trata de um golpe.

E desse jeito vamos vivendo e resistindo, com alguns espasmos de convivência democrática e respeito às regras do jogo como vivemos nas Olimpíadas, uma grande lição para senadores e imprensa brasileira, que desconhecem esses princípios.

Mas, tais como as Rafaelas, Isaquias, Thiagos e os Robsons, os brasileiros resistirão e voltarão ainda mais preparados para, novamente, fazer o povo sorrir. Resistiremos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O problema não é nas pernas


Futebol, para o povo brasileiro, passa muito longe de ser uma brincadeira, é das coisas mais sérias que podemos levar. Não existe exagero algum quando afirmamos que muitos trabalhadores sacrificam suas vidas pessoais para acompanhar seu time do coração ou a seleção canarinha de futebol, objeto de orgulho para o povo brasileiro, esporte que, pouco a pouco, no decorrer do século XX foi capaz de fazer diminuir o complexo de vira-latas que abatia nossa população.

Nos gramados brasileiros, desvirginados por um inglês, Charles Müller, vivemos episódios dos mais felizes de nossa história. Mais felizes ainda os que vimos pelas recém-chegadas televisões em 58, 62 e 70 nas copas da Suécia, Chile e México. Vimos um herói negro, símbolo do nosso povo chegar ao patamar que nenhum outro negro havia chegado na nossa história, posto o racismo existente em nosso país. Vimos grandes times regionais como o Botafogo e Santos das décadas de 60 e 70, Flamengo de 80, além do movimento cívico-esportivo-popular que foi a Democracia Corintiana em plena Ditadura Militar.

Dessa forma, as expectativas criadas pelo povo brasileiro para com a seleção de seu país, sempre são as melhores possíveis, mesmo que os resultados mais recentes digam o contrário. Como já afirmado neste blog, nenhum outro país pode reunir em sua seleção olímpica talentos como os que reunimos na nossa. Mas então por que o "fracasso"?

Não pude acompanhar os dois primeiros jogos da seleção masculina de futebol nas Olimpíadas, mas pude acompanhar a repercussão, e as entrevistas. Sim, as entrevistas de nossos "ídolos" são sofríveis, cheias de chavões e de pouquíssima, para não dizer nenhuma, consciência autocrítica. "A bola não quis entrar" e "jogamos muito bem, mas eles vieram fechadinhos" são os maiores exemplos de uma geração à qual não falta talento, mas sobra desconhecimento do que significa a seleção para os 200 milhões de técnicos existentes em nosso país.

Esse vazio em suas declarações reflete o vazio em que são formados. Não por culpa dos jovens recrutados cada vez mais cedo, são doutrinados a buscar um estilo europeu, colonizado, cujo principal objetivo não é representar seu país, mas fazer parte do mainstream mundial da bola. Europa e seus grandes clubes tem, cada vez mais, se tornado o objetivo principal.

Em tempos como os de agora, em que a democracia brasileira é assaltada, é lamentável não ver, no mundo do futebol, algo que mobiliza milhões e milhões de pessoas semanalmente, não vermos nenhum posicionamento sobre as questões nacionais, como se o futebol, aquilo a que tantos se dedicam, passasse à margem de tudo que está acontecendo no país. Ah, que saudade do que não vi na democracia corintiana.

É assim, com as chuteiras lustradas e a cabeça na Europa, que nossos jogadores aceitam jogar às 22h, mais de 70 jogos por temporada, a mando de gangs como a CBF e a Rede Globo de televisão. Por isso, reafirmo, o problema do futebol brasileiro não está nas pernas dos jogadores, mas na cabeça dos que mandam no futebol e na ideologia colonizada a que todos os maiores talentos do mundo estão submetidos. Parece exagero, mas não é.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Voo

Esta é a vida a que estamos condenados
procurando nos baús de nossas almas
confortos, consolos, vida

Esta é a liberdade que nos devora
sem, ao menos, poder partir

a partida é covarde, não passa impune
enquanto todos te apunhalam pelas costas

e te dizem querer bem

é na estrada, do normal de cada dia que devemos passar

pássaro, então, de asas quebradas
pede abrigo, chora e canta

com a esperança de que um dia            r
esse nó na garganta desfalecerá          a
                                                         o
e falecerá a vontade de partir e     v

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

As Olimpíadas e a chance do futebol brasileiro se redimir


Nesta sexta-feira, um símbolo do Brasil que vivemos nos últimos 13 anos será inaugurado em pleno Rio de Janeiro: as Olimpíadas do Rio 2016. Fruto de um país que, comandado por um operário e por uma mulher, mostrou que é capaz de sediar grandes eventos e mostrar a forma ativa e altiva de se inserir no mundo, seja comercialmente, economicamente ou desportivamente.

Para além da questão de ser uma sede, foi nesse período mais recente que a competitividade dos atletas nacionais passou a ser levada a sério, com a Lei do Incentivo ao Esporte e iniciativas como o Bolsa Atleta, que proporcionaram aos atletas de alto rendimento dedicarem-se integralmente às suas práticas esportivas. Além disso, programas como o Segundo Tempo, elevaram a importância da prática esportiva na vida das pessoas, desde sua infância.

Sem pormenorizar cada aspecto político - relevantes, é claro - e dos demais esportes, cabe ressaltar a estreia do futebol brasileiro nas competições - masculina e feminina - de futebol, uma rara oportunidade que a pátria de chuteiras tem de se reencontrar com sua seleção e com a paixão de voltar a torcer por seu país nos gramados, e que a organização do futebol brasileiro - CBF, técnicos e jogadores - têm de se redimir com os torcedores.

Hoje, logo menos, a Seleção Feminina de Futebol estreia contra a China. Guerreiras, sem nenhum incentivo dos organizadores do futebol brasileiro, mas com um time de craques, esperam - elas sim - que o futebol brasileiro se redima com elas e, quem sabe, serem mais levadas a sério e terem a oportunidade de serem tratadas de maneira equitativa.

No futebol masculino, de estreia marcada para amanhã entre Brasil e África do Sul, uma maneira de se redimir com todos aqueles que, há dois anos, depositaram a esperança de gritar um título de Copa do Mundo em solo nacional.

Naquele período, mesmo com toda a oposição que o evento sofreu, o povo brasileiro se mobilizou e carregou uma grande esperança de ver jogadores de renome como Neymar, Willian, Marcelo e Daniel Alves levantarem a taça. Infelizmente, por questões táticas e técnicas, mas sobretudo, reflexos da nossa organização, sofremos o maior vexame da história do nosso futebol, nem de longe comparável ao Maracanaço da copa de 1950.

Hoje, com uma nova geração, em sua maioria menores de 23 anos (três acima dessa idade), podemos novamente cantar a esperança de levantar um título importante para a história do futebol brasileiro - dessa vez a inédita medalha de ouro olímpica. 

Talentos, nessa geração, são muitos. Diferentemente do que alguns comentaristas esportivos da nossa mídia colonizada afirmam, não temos uma crise de "formação de craques", afinal de contas, que outra seleção tem ao luxo de, na sua seleção que não é a principal, contar com talentos como Marquinhos, Rafinha Alcântara, Felipe Anderson, Gabriel, Gabriel Jesus e Luan? Qual é o outro país que, ano após ano, emplaca 4 jogadores na seleção mundial da FIFA?

Dessa forma, se o problema não é de geração, temos, diante dos nossos olhos, uma ótima oportunidade de ver a recuperação nascente do futebol brasileiro, que, mesmo maltratado pelos seus gestores, tem, na esperança de cada jovem o amor pela bola desde cedo e a vontade de vê-lo bem tratado, começando pelos técnicos e passando aos gestores. Obviamente, um título não significa a mudança que queremos ver, mas ajuda a, pelo menos, esquecermos a tristeza de dois anos atrás. Vejamos.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Um golpe, várias causas, uma maneira de resistir: lutar!


Passados poucos mais de 60 dias de governo usurpador e ilegítimo, crescem, além da insatisfação popular, formas de analisar e procurar causas, conexões e alternativas para superar aquilo que pode ser o período dos mais profundos retrocessos da história republicana no Brasil.

É muito comum, por exemplo, motivados pela angústia que o momento nos traz, buscarmos uma única causa, aquilo que seria o motivo fatal para as forças reacionárias brasileiras terem aplicado um golpe ao Estado Democrático de Direito e, em tão pouco tempo, estarem aplicando um programa de grande perda de direitos sociais. Essa postura no entanto, é anti-dialética, visto que é preciso enxergar a conexão universal dos fatos e também perceber a luta de classes como motor da história, a eterna luta e unidade de contrários, a eterna luta entre o novo que quer se afirmar e o velho que resiste.

Eleição de um governo dirigido por forças de esquerda: uma afronta às forças conservadoras

Quando se fala do quão significativo foi para a história brasileira a eleição de Lula em 2002 e o ciclo que foi aberto a partir daquele instante, mesmo que pareça clichê, é preciso reiterar a maneira como as peças do tabuleiro nacional e geopolítico em instância internacional foram alterados.

O Brasil, embora em mais de 500 anos tenham tentado nos fazer acreditar, não é um país qualquer, é um país com um território imenso, carregado de recursos naturais; uma população (mercado consumidor) equivalente às das maiores economias do mundo (excetuando-se a China) e uma economia com as mais amplas possibilidades. Tudo isso a serviço dos interesses econômicos das grandes metrópoles mundiais: ora Portugal, ora Inglaterra, ora Estados Unidos da América.

O fato é que os interesses internacionais para essa grande potencialidade eram sempre no sentido de mantê-lo como colônia, como exportador de matérias primas, como quintal, ou como diria Caio Prado Jr.: "Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos construímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isso. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras".

Nesse sentido, da mesma forma como foram combatidos de maneira espúria governos que, de alguma forma, tentaram alterar essa lógica, tais como os de Getúlio e Jango, cujo vetor passava por desenvolvimento nacional, com fortalecimento da indústria, garantia de alguns direitos sociais e maior diálogo com as forças sociais mais populares, os governos dos últimos 13 anos, frutos de uma ampla coalizão de forças, que abrigava a esquerda, o centro e setores da burguesia industrial e rentista, também foram combatidos, principalmente pelo caminho nacional que tentavam trilhar.

Além disso, foram nos últimos anos que foram dadas consequências reais àquilo que fora planejado há praticamente um século, àquilo que a revolução burguesa no Brasil, pós 30, precisava ter instaurado: um estado moderno, preparado para garantir o desenvolvimento e a competição num mercado cada vez mais globalizado. Foram nesses últimos 13 anos que conquistas sociais pensadas nesses tempos foram garantidas e aprofundadas. Se é verdade que Getúlio criou o salário mínimo, é verdade também que foi nos últimos 13 anos que seu aumento anual indexado foi garantido; se é verdade que Getúlio criou a Petrobras, foi nos últimos 13 anos que ela aumentou sua competitividade e descobriu o pré-sal; se é verdade que a Constituição de 88 prevê o direito à moradia e à educação, foi nos últimos 13 anos que programas como o Minha Casa, Minha Vida e o PROUNI foram criados.

A Crise do capitalismo e seus efeitos sobre as economias nacionais

Obviamento, num cenário de crise profunda do sistema capitalista, hodiernamente movido, sem exceção, pela lógica neoliberal, imperialista, conquistas como as que o Brasil obteve nos últimos anos "não cabem no PIB" da lógica dos entreguistas e neoliberais, ou como afirmara FHC: "é preciso acabar com a Era Vargas".

O fato é que o atual estágio de desenvolvimento do capitalismo mundial, rentista, cuja dimensão fictícia das riquezas dão as coordenadas sobre o que devem fazer os governos nacionais, as indústrias e os setores produtivos para salvar a riqueza dos grandes bancos do sistema financeiro, quanto menos barreiras existirem para a expansão dos seus "investimentos" (derivativos, dinheiro fictício, especulação na maioria das vezes), melhor.

Nesse sentido, num momento de crise das finanças no mundo, o que reflete no nível de hegemonia dos Estados Unidos da América, um governo como o dos últimos 13 anos é um obstáculo, pois, não por coincidência, foi, nesse período que a unipolaridade da governança mundial foi posta em cheque, tendo como um dos grandes responsáveis o Brasil, vide iniciativas como o BRICS e seu banco, o G20, UNASUL, CELAC e reestruturação do Mercosul.

De maneira devastadora, portanto, a troika tenta impor suas vontades, acabando com as economias nacionais e com o papel da política no seu sentido mais amplo, delegando a tecnocratas do mercado financeiro as decisões que precisam ser tomadas, não para salvar as economias nacionais, mas para salvar seus próprios interesses. Assim destruíram a economia da Grécia, Portugal e tantos outros; assim colocaram no comando de um país como a Itália um de seus párias.

No plano político, adotam uma espécie de nova "Doutrina Reagan", fechando o cerco contra todos aqueles que pensam diferente. Fecham o cerco à China no Mar da China e Oriente Médio, promovendo conflitos, ampliam as fronteiras da OTAN no sentido de enfrentamento a Rússia, patrocinando golpes como o da Ucrânia e estimulam conflitos de "baixa intensidade" na América Latina.

2013 e o ensaio do golpe

Para o Brasil, essa estratégia não é nova. Em 2013, motivados por grandes reivindicações populares pedindo mais direitos, melhores serviços públicos e uma melhor presença do estado na vida das pessoas, principalmente no que concerne ao direito à cidade, uma grande estratégia, já a partir dali, foi montada para direcionar as insatisfações populares contra a presidenta Dilma. Já ali afirmávamos em editorial da Princípios redigido por Adalberto Monteiro:

                                     "Agora, em junho de 2013, diante de uma explosão social, sem comando, a grande mídia, a serviço do campo político reacionário, não titubeou, percebeu uma grande oportunidade e procurou, ela própria, assumir a a direção das jornadas. Agiu, de modo escancarado, como um partido político, conclamou e arregimentou as massas para aderirem aos protestos, e tentou tutelar e manipular as manifestações, direcionando-as contra o governo e contra a liderança da presidenta Dilma Rousseff".

Estavam, ali, dadas as condições para a unidade do consórcio oposicionista que, mais tarde viria a derrubar Dilma Rousseff: mídia, oposição conservadora, setores rentistas, FIESP e classe média alta.

Nem tudo foram flores

Obviamente, um golpe das dimensões do que foi dado no Brasil, preparado há, pelo menos 3 anos, não é dado se as defesas não estiverem vulneráveis aos ataques inimigos. Nesse sentido, foram muitos os erros de condução, também, nesses últimos 13 anos, sobretudo da força dirigente hegemônica dentro desse processo.

Alguns dos erros mais importantes, com certeza, se referem a um certo despreparo (ou desprezo) ao enfrentar a real natureza do Estado brasileiro. Um estado cuja burguesia evitou, a todo custo envolver as massas nos movimentos políticos; um estado em que, mesmo após a Revolução de 30, manteve-se sua estrutura arcaica, assentada no latifúndio; um estado que, para se desenvolver, atrelou-se de maneira inquestionável ao imperialismo; um estado cujo à composição social, segundo Augusto Buonicore, "devem ser agregados os altos níveis salariais dos escalões superiores do poder executivo (burocracia civil e militar), legislativo e judiciário." Com uma estrutura burocrática que "leva à constituição de uma ideologia conservadora e meritocrática - apegada ao fetiche da divisão entre trabalho intelectual e manual, entre funções de mando e subordinadas e uma rejeição a qualquer controle externo, exercido pelas classes populares".

Nesse sentido, é notável a falta de pensamento estratégico para enfrentar essa natureza do estado brasileiro. Nesses 13 anos pouco se avançou para concretizar uma agenda de estado que, mesmo nos marcos do capitalismo, pudesse dar sequência às reformas que a burguesia, tanto em 30, quanto posteriormente, não quis ou não teve competência para aplicar: as reformas política, dos meios de comunicação, agrária, educacional, tributária etc.

Soma-se a isso o hegemonismo e exclusivismo da força dirigente, acrescida de um republicanismo inocente, que não soube ampliar onde era necessário, na superfície do poder republicano, estreitando ao máximo a distribuição de cargos no governo, e oferecendo as guardas àqueles que por 500 anos estiveram na estrutura do estado (judiciário, órgãos de controle, polícia federal).

Amplitude e questão nacional como vetores da tática 

Esses fatores, somados a tantos outros que não cabem neste artigo, não anulam a capacidade das forças progressistas brasileiras reagirem e voltarem a liderar um grande movimento de massas em torno da democracia e da resistência em torno das conquistas sociais que são ameaçadas pelo governo interino-golpista.

No entanto, para estabelecer a reação, é preciso 1º) reafirmar o caminho nacional como forma necessária para atingir o desenvolvimento, o equilíbrio das forças sociais e a manutenção do rumo socialista no Brasil, visto que na Era do Imperialismo, a grande maneira de resistir e lutar por um novo sistema econômico e social é ter uma nação forte, pujante, que possa garantir emprego, qualificação profissional, tecnologia de ponta e inovação, competitividade internacional e diversidade na sua matriz econômica, geridos por um estado moderno, forte, democrático e capaz de garantir igualdade de oportunidades, é preciso reafirmar a necessidade de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento; e 2º) criar um grande bloco de afinidades que, no momento atual, ultrapasse, inclusive a esquerda, mas que atinja setores amplos da nossa sociedade, incluindo empresários, artistas, setores produtivos etc., que identifiquem no caminho nacional e democrático a forma de sairmos da encruzilhada em que nos encontramos.

Para garantir esse bloco, urge construir pontes de afinidades com os mais variados atores da política nacional, sem contudo se isolar daqueles dos quais menos podemos nos isolar: o povo. O povo não pode virar um obstáculo, muito pelo contrário. No povo estão algumas das soluções econômicas e sociais para um país de 200 milhões de habitantes. Nesse sentido, nossa tática tem que ser clara, sem tergiversações que gerem incompreensões populares: isolar e dividir o lado de lá, mas juntar ao máximo o lado de cá, eis o caminho.

Por isso, a esse trabalho devem-se juntar todos aqueles que, sem restrições, acreditam nesse futuro democrático para o Brasil avançar. Sem o otimismo bestializado que acredita que em 2018 tudo pode voltar ao normal, nem com o pessimismo derrotista que não reconhece a jovialidade do nosso país, mas reconhecendo o futuro alvissareiro que temos pela frente. Mobilizar o povo ainda se faz necessário e bandeiras há para isso. O golpe é reversível, e para isso temos o instrumento correto: o voto, mobilizado e solicitado em torno de um plebiscito para que a soberania desse instrumento popular volte a ser respeitada. A vontade do povo, pela qual derramou-se tanto sangue precisa ser restabelecida. A guerra não acabou. Vamos à luta!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Faixa musical: Zeca Pagodinho - Um dos poetas do samba

A faixa musical de retomada do blog, pós hiato acadêmico de seu editor, é dedicada a um de nossos maiores sambistas e figuras mais fantásticas e humildes da música brasileira: Zeca Pagodinho. Em 1992, o bon vivant lançou seu oitavo álbum de carreira, intitulado "Um dos poetas do samba", uma obra de arte do verdadeiro samba brasileiro, com canções irreverentes como "Talarico, ladrão de mulher" e "Fumo do bom"; sambas românticos como "Quando quiseres" e sambas autênticos, reverenciando os antigos sambistas tais como a Velha Guarda da Portela.

Sem mais delongas, hora de escutar. Recomendo!